Guilherme Dietze*
O fim da escala 6 por 1 foi promulgada e passa a valer a partir de 16 de dezembro, e o setor hoteleiro precisará se adaptar. Não há mais espaço para o debate sobre se a mudança deveria ou não ter acontecido — a questão agora é como absorver seus impactos em um ambiente que já vinha pressionado por uma sucessão de choques de custo. E os impactos, dependendo do porte do estabelecimento, serão sentidos de formas muito distintas.
Os grandes grupos hoteleiros têm mais condições de enfrentar a transição. Um quadro de funcionários maior oferece mais flexibilidade para reorganizar escalas sem necessidade de contratações imediatas em larga escala, o caixa é mais robusto para absorver o aumento de custo no curto prazo e a capacidade de recrutamento é estruturalmente superior. Para os pequenos e médios estabelecimentos, o caminho é significativamente mais estreito: contratar mais profissionais para cobrir os turnos exige tempo, dinheiro e, não raramente, enfrenta a escassez de mão de obra qualificada disponível no mercado. O resultado imediato tende a ser compressão de margem — em um setor que já opera com margens historicamente apertadas.
A natureza da hotelaria agrava o desafio. Diferentemente de outros setores do varejo ou de serviços, o hotel opera 24 horas por dia, sete dias por semana, com uso intensivo de mão de obra em praticamente todas as suas funções — recepção, governança, alimentos e bebidas, manutenção, segurança.
A substituição por tecnologia de autoatendimento, que tem avançado em outros segmentos, encontra limites claros na hospedagem: o hóspede tolera um check-in digital, mas não abre mão do atendimento humano em momentos que importam. Isso significa que a folha de pagamento, já o principal item de custo de muitos estabelecimentos, tende a crescer — e a questão central passa a ser: quem absorve esse custo?
A resposta mais provável é que parte será repassada aos preços. Tarifas mais altas em um ambiente de consumidor já pressionado pelo endividamento, pelos juros elevados e pela concorrência com as plataformas de apostas é uma combinação que merece atenção.
Há um risco real de que o aumento de custo operacional se traduza em redução de demanda, especialmente nos segmentos de menor renda que nos últimos anos ampliaram sua participação no turismo doméstico. A equação entre repasse de custo e manutenção de ocupação não tem solução trivial.
O ponto positivo — e ele existe — é que a escala 5×2 pode tornar o setor mais atrativo para profissionais que hoje optam por outras carreiras. A hotelaria tem dificuldade histórica de reter talentos, em parte pela percepção de jornadas longas e finais de semana comprometidos. Oferecer dois dias consecutivos de folga é um diferencial real no mercado de trabalho e pode contribuir para reduzir a rotatividade, que tem custo alto e impacto direto na qualidade do serviço. No médio prazo, um setor mais atrativo é um setor com mão de obra mais qualificada e estável.
O problema é que esse benefício chegará em um momento particularmente inoportuno do ponto de vista do custo. O fim abrupto do PERSE já impôs ao setor um aumento expressivo da carga tributária, e a Reforma Tributária trará novos desafios pela frente, ainda sem impactos completamente dimensionados.
Custo tributário crescente, custo de mão de obra em alta e ambiente macroeconômico restritivo formam uma combinação que esgota progressivamente a capacidade contributiva do empresário hoteleiro. Cada nova imposição de custo, isoladamente, pode parecer administrável. O conjunto, acumulado em curto espaço de tempo, é o que preocupa.
O que incomoda não é necessariamente o mérito da medida, mas a forma como foi implementada. Uma decisão de tamanha repercussão operacional e financeira para setores trabalho-intensivos como a hotelaria exigiria um diálogo mais amplo com os agentes econômicos envolvidos e um prazo de transição que permitisse planejamento e adaptação. O que se teve foi uma mudança abrupta, com motivação eleitoral evidente e sem o amadurecimento necessário. No Brasil, porém, o empresário aprendeu a operar assim: ajusta a vela numa noite e, quando o vento muda na madrugada, já está pronto para ajustar novamente. É uma resiliência admirável — mas não deveria ser tão exigida.
Guilherme Dietze é economista e presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP
Artigo publicado originalmente no portal HotelierNews em outubro de 2026