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Resumo da matéria
  • Analistas avaliam, durante  reunião do Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política da FecomercioSP, que o quarto mandato de Lula enfrentará dificuldades para impor uma agenda propositiva sem melhorar a relação com o Congresso, empresários, mídia e sociedade.
  • O governo dependerá novamente do Centrão para aprovar projetos, e Lula precisará interpretar corretamente sua vitória eleitoral, renovando interlocutores e retomando diálogos.
  • O debate também destaca a crise de lideranças políticas, o esvaziamento dos partidos e a crescente influência das redes sociais. Por fim, a comunicação digital deverá ocupar posição central no novo mandato, com ênfase na desintermediação da mídia e na disputa direta de narrativas.

O governo Lula, em seu quarto mandato, terá mais dificuldades de impor uma agenda propositiva se não melhorar o relacionamento com o Congresso, os empresários e os meios de comunicação, bem como a interação com a sociedade. Essa é uma das conclusões do debate na reunião extraordinária do Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política da Federação do Comercio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). O encontro reuniu Carlos Melo, cientista político e professor no Insper; Manoel Fernandes, diretor da consultoria de análise de dados digitais Bites; e Paulo Delgado, assessor de Relações Institucionais da Federação.

Na ocasião, Melo disse que acredita que o mandato de Lula não esteja irremediavelmente inviabilizado por causa do avanço da oposição no Congresso Nacional. Ele entende que, apesar de o PL ter formado uma grande bancada na Câmara Federal, com 128 deputados, os partidos de esquerda emplacaram 124 parlamentares. Como consequência, o Executivo dependerá novamente do Centrão para aprovar projetos de seu interesse.

“Ninguém terá maioria para fazer o que quiser. O governo vai precisar de 257 votos para evitar uma agenda hostil e 308 para fazer reformas na Constituição. O presidente vai tentar reconstruir a sua governabilidade e, mais uma vez, o Centrão é quem decidirá, exigindo posições e recursos. No Senado, a situação é mais complexa. O PL tem 28 senadores, mas precisaria de 41 votos para fazer maioria, 49 para aprovar emendas constitucionais e 54 para promover o impeachment de um ministro do STF”, afirmou Melo.

Segundo o cientista político, o rumo do próximo governo dependerá, fundamentalmente, de como o presidente interpretará o resultado das eleições. Se atribuir a vitória ao próprio carisma ou à força do Partido dos Trabalhadores (PT), cometerá, em sua avaliação, um erro. “Lula não venceu necessariamente por uma aprovação ampla de seu governo, mas porque, no segundo turno, o antipetismo e o antibolsonarismo se confrontaram, e a rejeição ao campo adversário acabou prevalecendo”, ressaltou Melo, alertando que o presidente precisa compreender essa dinâmica para não confundir a vitória eleitoral com um aval irrestrito da sociedade à sua gestão.

Essa leitura será decisiva para definir as escolhas políticas de Lula. Melo avalia que, se quiser construir um mandato diferente do anterior, o presidente terá que renovar o círculo de interlocutores, melhorar a articulação com o Congresso, estabelecer pontes com o empresariado e o mercado e retomar o diálogo com os veículos de comunicação, que, segundo ele, foram ignorados no terceiro mandato.

Falta de lideranças

O ex-deputado Paulo Delgado, da área de Relações Institucionais da FecomercioSP, fez uma análise bastante crítica da política brasileira, destacando o esvaziamento dos partidos, a perda de qualidade do debate público e a influência crescente das redes sociais sobre as eleições. Para ele, o eleitor tradicional está sendo substituído pelo seguidor: os políticos conquistam votos pela capacidade de mobilizar audiências digitais, muitas vezes sem manter vínculos claros com uma comunidade ou região. Esse fenômeno enfraquece a representatividade e contribui para uma crise de identidade do Congresso, formado por parlamentares cuja projeção pode depender mais dos meios digitais do que de uma base eleitoral territorialmente definida.

Delgado também criticou a estagnação dos sistemas políticos e a falta de lideranças capazes de formular projetos para o País. Segundo ele, o Congresso perdeu densidade intelectual, faltando parlamentares com capacidade de análise prospectiva e de pensar para além das disputas imediatas. Na sua avaliação, a política passou a privilegiar acusações, disputas morais e ataques pessoais em detrimento de currículos, ideias e discussão de propostas. Ele também alertou para o risco de as redes sociais produzirem uma democracia superficial, marcada pela reação emocional e pela circulação de opiniões sem reflexão.

Construção de narrativas

Fernandes, da Bites, avaliou que o governo Lula deverá sair da eleição com uma percepção renovada sobre a importância da comunicação digital. Ele acredita que a campanha mostrou ao presidente que as redes sociais deixaram de ser um instrumento secundário e passaram a ocupar uma posição central na disputa política. Por isso, considera provável que Lula dê prioridade à comunicação digital no novo mandato. O presidente teria percebido que não basta contar com a estrutura tradicional dos partidos, com o apoio de lideranças políticas ou com a cobertura da imprensa; é preciso disputar diretamente a atenção do público nas plataformas digitais, mobilizando apoiadores, influenciando a agenda e respondendo aos adversários no ambiente em que boa parte da disputa política acontece.

Uma das mudanças mais importantes seria a desintermediação da mídia. Em vez de depender dos veículos de imprensa para transmitir suas mensagens, o governo pode buscar uma relação direta com o público pelas redes sociais. Nesse cenário, a comunicação digital passa a ser não apenas um canal de divulgação, mas um instrumento de disputa política e de construção de narrativas. O analista enfatizou ainda que Lula chega a esse novo mandato com uma base de apoiadores digitalmente mobilizada. O WhatsApp continua sendo um espaço importante de articulação desse grupo, enquanto adversários utilizam plataformas como o Instagram para defender posicionamentos e disputar a atenção dos eleitores.


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