O varejo paulista deve criar 20,5 mil vagas com carteira assinada em outubro e novembro para atender à demanda da Black Friday e do Natal. Apesar da previsão positiva, o resultado será o pior em seis anos, reflexo da desaceleração das vendas e da economia.
Supermercados e vestuário concentram contratações: os dois segmentos devem responder por 60% a 65% das vagas, principalmente para vendedores, atendentes, operadores de caixa e repositores.
Queda nas vendas reduz contratações: o faturamento real do varejo paulista recuou 6,1% no acumulado do ano até julho. Entre janeiro e agosto, o setor fechou pouco mais de 11 mil postos de trabalho.
Crise das varejistas e mudanças na jornada preocupam: fechamentos de lojas, recuperações judiciais, automação e possíveis mudanças na escala 6×1 podem limitar ainda mais a abertura de vagas temporárias.
O comércio varejista no Estado de São Paulo deve gerar cerca de 20,5 mil novas vagas com carteira assinada (saldo entre admitidos e desligados) nos meses de outubro e novembro. A movimentação ocorre para atender ao aumento da demanda da Black Friday e do Natal, além dos efeitos do pagamento do décimo terceiro salário.
De acordo com a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), os supermercados e as lojas de vestuário e calçados devem concentrar entre 60% e 65% das vagas. Esses negócios estarão divididos principalmente entre vendedores, atendentes, operadores de caixa e repositores.
Apesar da previsão de contratação ser positiva, o levantamento da Federação aponta para um recuo em relação ao mesmo período do ano passado, quando 23,9 mil postos de trabalho foram abertos. Se confirmada a projeção, a geração de vagas terá o pior desempenho desde 2020 no setor.
Diminuição das vendas limita contratações
De acordo com a FecomercioSP, dois movimentos ajudam a explicar a queda anual. O primeiro deles é a redução nas vendas. No acumulado do ano até julho, o faturamento real do varejo paulista caiu 6,1%. Em 12 meses, o recuo foi de 3,5%, de acordo com a Pesquisa Conjuntural do Comércio Varejista (PCCV), elaborada pela FecomercioSP, com base em informações da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz/SP). Com a redução do faturamento, a propensão das empresas a contratar também diminuiu.
O segundo motivo é a forte base de comparação. O varejo paulista atingiu o maior patamar de vínculos celetistas da série histórica em novembro de 2025. Diante da desaceleração da economia e das vendas, o setor tem ajustado seu quadro de funcionários e reduzido a abertura de vagas em algumas atividades. No acumulado do ano até agosto, pouco mais de 11 mil postos foram fechados no varejo do Estado.
Jornada de trabalho e crise das varejistas
Apesar de o levantamento considerar o comportamento recente do mercado de trabalho, a FecomercioSP alerta que alguns fatores podem impactar a dinâmica de abertura de vagas no fim do ano, como a crise financeira de grandes varejistas e os casos de recuperação judicial, que contribuíram para o fechamento de lojas e afetaram os resultados mensais de emprego do setor. Novos fechamentos de lojas, se ocorrerem, podem prejudicar o desempenho geral do segmento e levar o saldo efetivo de postos a ficar abaixo da projeção.
Outro ponto de atenção, de acordo com a Federação, é o fim da escala 6×1. Ainda que haja um período de transição, atividades que já estavam automatizando funções devem ter uma menor necessidade de contratação temporária. Nos supermercados, por exemplo, algumas empresas intensificaram a instalação de caixas de autoatendimento (self-checkouts), reduzindo a necessidade de operadores de caixa, uma das funções mais demandadas no fim do ano. Além disso, há a elevação do custo da hora trabalhada, o que faz com que as empresas adotem uma postura mais cautelosa em relação às contratações.
O que considerar na hora de contratar
Na avaliação da FecomercioSP, embora boa parte dos trabalhadores contratados para o fim de ano permaneça nos postos por, no máximo, 90 dias, é importante que os lojistas observem o perfil dos profissionais para identificar possibilidades de efetivação. Assiduidade e pontualidade, qualidade do atendimento, cumprimento de procedimentos e produtividade — além do relacionamento com a equipe — são alguns critérios a considerar.
Também recomenda-se comparar o desempenho do novo funcionário com a média da equipe na mesma função, considerando que o fluxo de clientes durante a Black Friday e o Natal é atípico. Ouvir supervisores e colegas de turno ajuda a avaliar aspectos como atitude, colaboração e capacidade de aprender, além do potencial demonstrado sob pressão. Outra medida é realizar avaliações curtas e documentadas, por exemplo, no 15º e no 30º dia de contrato e na semana que antecede seu término, dando retorno ao funcionário sobre seus pontos fortes e os aspectos que precisam ser aprimorados. Isso permite corrigir eventuais problemas ao longo do período.
Os lojistas também podem avaliar a possibilidade de efetivação do novo talento e a realocação ou reciclagem do profissional mais antigo, por meio de treinamento e mudança de função ou de escala, o que pode resultar em uma equipe mais produtiva. Afinal, desligamento de funcionários, recrutamento de novos profissionais e novos treinamentos consomem tempo e recursos.