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A inteligência artificial (IA) já influencia a maneira como turistas planejam viagens e empresas administram negócios. Mas, entre o acesso à tecnologia e sua aplicação efetiva, ainda existe uma distância considerável. Como aproveitar esse potencial sem comprometer a rentabilidade ou perder o contato humano que caracteriza o setor?

A questão foi discutida na reunião de outubro do Conselho de Turismo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), que recebeu Cadu Cordeiro, head comercial da Bebook, e Luiz Moura, cofundador e Chief Business Officer (CBO) da VOLL.

Segundo o presidente do conselho, Guilherme Dietze, o objetivo foi ampliar o debate para além das soluções já disponíveis no mercado. “A ideia é trazer provocações para que outros setores consigam pensar de que forma podem agregar isso às suas empresas”, afirmou.

Da análise à decisão

Na hotelaria, a tecnologia já permite avaliar o comportamento da demanda e apoiar decisões comerciais. Cordeiro apresentou pesquisas que revelam, porém, uma adoção ainda desigual. Um levantamento internacional com 58 mil hotéis, divulgado em setembro, mostrou que 80% das equipes comerciais dedicam parte importante da semana à análise manual de relatórios.

Embora 54% dos participantes já tenham investido ou estejam investindo em IA generativa, apenas 24% das empresas pesquisadas contam com processos de governança para o seu uso. “Os hotéis confiam na IA como assistente, mas ainda não dão autonomia. É uma ferramenta que auxilia, automatiza e potencializa o conhecimento de quem a utiliza”, explicou Cordeiro.

Como exemplo prático, o executivo apresentou uma solução capaz de analisar se determinada proposta de hospedagem para grupos é financeiramente vantajosa. A ferramenta considera o histórico de reservas e a previsão de demanda para recomendar condições de negociação, sem desconsiderar a estratégia comercial do estabelecimento.

Para os pequenos negócios, entretanto, persistem obstáculos relacionados ao investimento e à falta de profissionais preparados para conduzir a transformação. Segundo Cordeiro, a resistência diminui quando o empresário compreende o retorno esperado. “Quando você consegue fazer essa conta com o empreendedor e mostrar como a tecnologia pode melhorar o resultado, ele começa a baixar a guarda”, observou.

Eficiência responsável

No turismo corporativo, a IA também começa a modificar a organização do trabalho. Moura destacou que agentes digitais podem assumir tarefas repetitivas e apoiar gestores na análise de informações, com ganhos de produtividade.

Na VOLL, uma aplicação monitora alternativas de voos antes da aprovação das passagens. Segundo o executivo, a solução proporcionou redução de 17% nos custos no primeiro semestre, com alterações médias de apenas cinco minutos nos horários de embarque ou desembarque.

O avanço, contudo, exige atenção aos gastos. Segundo Moura, incorporar ferramentas sem objetivos definidos pode representar um risco, especialmente em um segmento que opera com margens reduzidas.

“Se as empresas não olharem com cuidado para o valor que a IA gera, em vez de utilizá-la a qualquer custo, isso pode representar mais um risco do que uma oportunidade”, alertou.

Outro ponto abordado foi a necessidade de estabelecer limites à autonomia dos sistemas e critérios para avaliar os investimentos. O executivo recomendou que as empresas comecem por atividades de menos risco antes de ampliar a aplicação para processos mais sensíveis. Apesar das possibilidades de automação, Moura defendeu que o diferencial do Turismo continuará associado à experiência humana. “A nossa oportunidade é a IA dar espaço para o ser humano fazer aquilo que só ele faz hoje, que é cuidar das pessoas”, concluiu.


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