A sustentabilidade vem deixando de ocupar uma posição isolada nas empresas para participar diretamente das decisões sobre investimentos, custos, fornecedores e competitividade. Mais do que assumir compromissos ambientais, o desafio é transformar essas práticas em resultados mensuráveis, capazes de gerar valor a negócios e sociedade.
Essa foi uma das principais discussões da reunião do Conselho de Serviços da Federação do Comércio de Bens, Serviços Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), realizada em 19 de outubro, que recebeu Fernanda Facchini, gerente sênior de Sustentabilidade da Natura, para apresentar a experiência da companhia na integração de práticas ambientais e sociais à gestão empresarial. O encontro também abordou as iniciativas da Federação para orientar as empresas e temas legislativos com impacto sobre o setor de Serviços.
Na abertura, o presidente do conselho, Marcelo Braga, ressaltou a importância de aproximar essas discussões da realidade das empresas. A proposta, segundo ele, é fazer com que sustentabilidade, governança e reputação sejam compreendidas não apenas como compromissos institucionais, mas também como elementos de fortalecimento dos negócios.
Sustentabilidade incorporada à gestão
Com mais de duas décadas de atuação na Natura, Fernanda explicou que a companhia passou a trabalhar com o conceito de regeneração, que amplia a perspectiva tradicional de redução dos impactos ambientais. A proposta é desenvolver um modelo de negócio capaz de gerar benefícios econômicos, sociais e ambientais à medida que cresce.
Para isso, a sustentabilidade precisa estar incorporada aos processos internos e aos critérios utilizados na tomada de decisão. A executiva apresentou o modelo de resultado integrado adotado pela empresa, que considera, além do desempenho econômico, os reflexos nos capitais humano, social e natural.
Segundo os resultados apresentados por Fernanda, a Natura alcançou, em 2025, uma relação de cerca de R$ 4 de impacto socioambiental positivo para cada R$ 1 de receita. O indicador considera efeitos associados às atividades da companhia, como geração de renda, capacitação, relacionamento com comunidades e impactos ambientais, utilizando uma metodologia de valoração integrada.
A executiva salientou que mensurar esses resultados é fundamental para que a sustentabilidade deixe de depender exclusivamente de iniciativas pontuais. Na Natura, metas relacionadas ao tema também fazem parte dos indicadores utilizados na remuneração variável dos executivos, contribuindo para inserir a agenda na rotina de gestão.
Um exemplo apresentado foi o desenvolvimento de um hidratante concentrado de castanha, que permite ao consumidor adicionar água em casa. De acordo com a empresa, a mudança proporcionou reduções de 80% no uso de plástico, de 55% na geração de resíduos e de quase 40% nas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), além de diminuir em 75% a necessidade de transporte por caminhões. Esses resultados ilustram como alterações na formulação, na embalagem e na logística podem reunir ganhos ambientais e redução de custos operacionais.
A integração também aparece na relação com fornecedores da Amazônia. A Natura informou trabalhar com 46 comunidades e quase 12 mil famílias, associando a obtenção de ingredientes da biodiversidade a investimentos em tecnologia, capacitação e desenvolvimento local. A iniciativa demonstra como a gestão socioambiental pode influenciar a cadeia produtiva e a continuidade do abastecimento.
Pequenas empresas lidam com obstáculos para adotar práticas sustentáveis
A experiência da Natura foi relacionada às dificuldades enfrentadas por empresas de menor porte durante a apresentação de Cristiane Cortez, assessora do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP.
Uma sondagem realizada pela Federação com 200 empresas, em 2024, identificou que 51% desses negócios já haviam sentido as consequências das mudanças climáticas, enquanto 13% precisaram interromper as operações em razão de eventos climáticos adversos. Para quase 87%, o tema apresentava relevância média ou alta.
O levantamento também mostrou entraves à adoção de práticas sustentáveis. A falta de recursos financeiros foi apontada por aproximadamente metade das empresas, ao passo que 30% mencionaram a ausência de conhecimento técnico e cerca de 12%, a insuficiência de recursos humanos.
Diante desse cenário, Cristiane destacou a importância de começar por medidas acessíveis, como a redução dos consumos de água e energia, a gestão adequada de resíduos e o acompanhamento de indicadores simples. A orientação é que as empresas avancem gradualmente, de acordo com sua capacidade de investimento e estrutura operacional. A assessora também apresentou a Agenda Verde da FecomercioSP, organizada em 12 metas distribuídas por seis temas prioritários, incluindo economia circular, logística reversa, eficiência no consumo de recursos, transição energética e combate ao desmatamento ilegal.
Dentre os instrumentos disponíveis às empresas, destaque para publicações orientativas, uma ferramenta gratuita de avaliação da maturidade em sustentabilidade e uma plataforma de logística reversa. O objetivo é facilitar a adoção de práticas ambientais e de governança, inclusive entre negócios que não contem com equipes especializadas.
Outro ponto abordado foi a necessidade de comunicar resultados com transparência. Cristiane alertou para os riscos do greenwashing, quando empresas utilizam alegações ambientais sem apresentar informações que comprovem suas práticas. Para ela, mesmo indicadores simples de consumo, resíduos ou eficiência podem ajudar os negócios a acompanharem sua evolução e comunicarem resultados de maneira consistente.
Mudanças trabalhistas exigem planejamento das empresas
Além da sustentabilidade, a reunião tratou das repercussões da redução da jornada de trabalho sobre os Serviços. Reiner Leite, da área de Relações Institucionais da FecomercioSP, apresentou a atuação da Federação e dos sindicatos no acompanhamento das discussões legislativas, destacando a mobilização das entidades e a importância de manter o diálogo com o Congresso Nacional.
A assessora jurídica Karina Negreli abordou as mudanças relacionadas à jornada e às escalas de trabalho, conforme a Emenda Constitucional (EC) 141/2026 mencionada durante a reunião. A necessidade de reorganização das equipes, a adaptação das escalas de revezamento e os possíveis efeitos sobre os custos operacionais, especialmente nas Micro e Pequenas Empresas (MPEs), foram algumas das preocupações apresentadas.
Karina ainda explicou a importância da negociação coletiva na definição de alternativas para a organização do trabalho, incluindo banco de horas, compensação de jornadas e modalidades contratuais previstas na legislação. Também chamou a atenção para a necessidade de acompanhar a regulamentação e avaliar os efeitos das novas regras sobre atividades que dependam de atendimento contínuo ou apresentem mais demanda em períodos específicos.
A FecomercioSP informou que já disponibilizou orientações jurídicas iniciais e continuará acompanhando os desdobramentos para apoiar os Sindicatos e as empresas representadas.
Articulação institucional ganha espaço na agenda
A reunião também discutiu a necessidade de fortalecer o relacionamento entre o setor de Serviços e os representantes eleitos. O vice-presidente do conselho, Eládio Paniágua, defendeu uma aproximação antecipada com os parlamentares para que eles conheçam as características das atividades econômicas e os impasses enfrentados pelas empresas antes de participar de decisões que afetem o ambiente de negócios.
Em resposta, Leite informou que a FecomercioSP está concluindo um mapeamento da bancada paulista, com informações sobre o perfil temático e a base eleitoral dos parlamentares, com o objetivo de auxiliar os Sindicatos no relacionamento institucional.