Economia
21/08/2026Metade das empresas paulistanas contabiliza gastos para se proteger do crime
Negócios apontam que consumidores estão preferindo comprar online e evitam circular em alguns horários em razão da insegurança na cidade
Ao operarem em regiões inseguras, ou se relacionarem com consumidores com medo, e ainda expostas a casos de violência, metade (52%) das empresas do Comércio na cidade de São Paulo gasta parte das receitas para se proteger da insegurança [tabela 1].
O dado faz parte de uma sondagem sobre segurança pública da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, que ouviu 500 empresas do setor na capital paulista.
O estudo mostra que cerca de um quarto (25,6%) investe em câmeras e sistemas de monitoramento, enquanto outras 6,4% optaram por serviços de vigilância ou rondas. Além disso, 15,6% combinam estratégias diferentes. Em outras palavras, mais da metade das empresas do setor paga por uma função que deveria ser do Estado.
Quando perguntado sobre a mudança mais relevante nessa rotina dos negócios, 24,8% do empresariado aponta aumento de gastos com a segurança, enquanto 12,6% notam uma redução no fluxo de consumidores [tabela 3].
A sondagem também revela um contraste intrigante: 62% dos negócios afirmam não terem sido afetados por problemas de segurança no último ano [tabela 2]. Na verdade, apenas 12% foram impactados diretamente e 15% no entorno, com 11% afetados de forma indireta.
A avaliação da Federação é que, embora essa exposição direta ao crime seja minoritária, a resposta defensiva é majoritária. Assim, a insegurança pública se tornou um custo estrutural, porque foi incorporada aos custos para além da experiência concreta de casos de violência.
Um dado que corrobora esse diagnóstico é que mais da metade das empresas não avalia o ambiente ao redor de suas operações como efetivamente seguro.
[TABELA 1]
A sua empresa gasta recursos para lidar com a insegurança? Se sim, esses custos são destinados a que tipo de medida?
Fonte: FecomercioSP
Sim, com vigilância privada e/ou rondas | 6,4% |
Sim, com câmeras, alarmes ou monitoramento | 25,6% |
Sim, com seguros, escolta ou proteção logística | 1,6% |
Sim, com reforço físico | 3,0% |
Sim, com mais de uma dessas medidas | 15,6% |
Não tenho gastos adicionais | 47,8% |
[TABELA 2]
A sua empresa foi afetada por algum caso de violência nos últimos 12 meses?
Fonte: FecomercioSP
Sim, diretamente | 12,0% |
Sim, no entorno da empresa | 15,0% |
Sim, indiretamente | 11,0% |
A empresa não foi afetada | 62,0% |
[TABELA 3]
Qual é o principal impacto da insegurança sobre as operações do seu negócio?
Fonte: FecomercioSP
Aumentamos os gastos com segurança | 24,8% |
Notamos uma redução do fluxo de consumidores | 12,6% |
Lidamos com restrição de horários de operação | 2,6% |
Temos dificuldade para contratar/manter colaboradores | 8,0% |
Registramos perdas com furtos, roubos e fraudes | 6,0% |
Não houve impacto relevante sobre as operações | 46,0% |
Em relação aos reflexos da insegurança nos hábitos dos consumidores, 12,8% dos negócios notaram aumento da preferência por compras online ou no modelo delivery. Outros 12,6% observam os clientes evitarem ir ao local físico nos horários e nos dias que tendem a ser mais perigosos [tabela 4].
E qual é o maior temor?
Hoje é, sobretudo, de sofrer um assalto (63% dos casos), seguido de quem teme que um cliente ou os funcionários sejam roubados (56%). Crimes digitais figuram como a terceira maior preocupação (55%), à frente do vandalismo e do roubo de carga [tabela 6].
[TABELA 4]
Qual é o principal impacto da insegurança sobre seus clientes?
Fonte: FecomercioSP
Reduziu significativamente o fluxo | 9,6% |
Os consumidores evitam certos horários e dias | 12,6% |
Aumentou a preferência por comprar online | 12,8% |
Na verdade, os impactos são poucos | 23,6% |
Não afeta em nada | 41,4% |
[TABELA 5]
Qual é o principal impacto para a operação?
Fonte: FecomercioSP
Reduziu horário de funcionamento | 8,8% |
Deixou de operar em determinadas regiões | 2,0% |
Migrou parte das vendas para digital/delivery | 2,8% |
Recusou entregas, visitas ou serviços | 5,8% |
Não alterou operação, mas aumentou custos | 15,6% |
Não houve alteração | 65,0% |
[TABELA 6]
Qual é o tipo de crime que mais preocupa o seu negócio?
Fonte: FecomercioSP
Furto/roubo ao estabelecimento | 63,4% |
Furto/roubo a clientes e colaboradores | 56,4% |
Roubo/furto ou desvio de cargas e estoques | 38,0% |
Fraudes, golpes e crimes digitais | 55,0% |
Vandalismo, depredação ou invasão | 38,6% |
Extorsão, ameaças ou organizações criminosas | 29,4% |
Furto de cabos/fios/equipamentos | 40,8% |
Outro | 11,2% |
A FecomercioSP também perguntou ao empresariado quais medidas observa serem mais necessária para melhorar a situação, ouvindo de 32% que uma presença mais ostensiva da polícia é fundamental. Na sequência, o combate ao crime organizado e à receptação, com 18,2%.
[TABELA 7]
Qual seria a medida pública de maior impacto para melhorar a segurança?
Fonte: FecomercioSP
Maior presença ostensiva das polícias | 32,0% |
Integração entre órgãos públicos | 13,2% |
Investigação mais rápida e efetiva | 4,8% |
Mais tecnologia, câmeras, dados e inteligência | 9,8% |
Endurecimento das penas | 12,8% |
Combate ao crime organizado e receptação | 18,2% |
Todas as anteriores (não foi lida aos entrevistados) | 9,2% |
Grandes mais afetadas
Os dados da sondagem também mostram que insegurança reflete nas empresas conforme o porte. De um lado, as grandes se sentem mais expostas à violência tanto no entorno (22%, contra 15% da média geral) como diretamente (16%), enquanto nas micro e pequenas, esse porcentual é de12%.
As grandes também têm mais dificuldades de contratar e manter funcionários por causa da segurança (16%, contra 14% das médias e 4% das micro). Uma possível explicação para essa discrepância nos resultados é que grandes empresas do varejo costumam trabalhar em horário estendidos (noturno) e até mesmo em operações 24 horas, períodos em que a insegurança e os casos de violência são maiores.
Por outro lado, as micro e pequenas empresas são as mais atingidas no fluxo de consumidores (15,9% relatam redução de fluxo como principal impacto, ante 8,1% nas médias e 4% nas grandes). Assim, o segmento com menos capacidade de absorver perdas é justamente o mais penalizado no consumo.
Pleitos por melhorias
Os dados da sondagem são, na leitura da FecomercioSP, sintomáticos de uma conjuntura marcada por medo. Os consumidores estão mudando os hábitos de compra (quase 6 em cada 10 empresas já notaram o fenômeno) para evitar casos de violência e, com isso, forçam as empresas a gastarem mais com dispositivos de proteção. Isto é, essa situação não é mais problema só de quem experiencia a violência, mas de toda a sociedade.
A FecomercioSP tem atuado para mudar essa realidade. Na visão da Entidade, é preciso enrijecer as medidas de punição a criminosos e investir em meios de inteligência para minar os mercados ilegais que financiam todo o crime.
A Federação acompanhou a tramitação e apoiou a aprovação do Projeto de Lei (PL) 3.780/2023, convertido na Lei 15.397/2026, que aumentou a pena para crimes como roubo, furto e receptação e, agora, apoia a aprovação da PEC da Segurança Pública no Senado Federal.
Além disso, a Federação entende que enfrentamento do crime organizado exige mais integração e instrumentos jurídicos mais rigorosos. A criação de regimes jurídicos especiais a organizações criminosas de alta periculosidade é uma medida proporcional à gravidade do problema.
Para saber mais sobre a agenda da FecomercioSP para a segurança pública, clique aqui.