Sustentabilidade
24/02/2026Quem gira a economia circular
Com renda, dignidade e resistência, cooperados e catadores mantêm viva uma engrenagem bilionária que ainda recicla apenas 8% dos resíduos do País
O Brasil produz cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos por ano, 382 quilos por habitante. No entanto, apenas 8% dos resíduos secos das cidades brasileiras seguem para a reciclagem, um porcentual ainda baixo — e potencial gigantesco para o meio ambiente e a geração de emprego e renda. Ainda estigmatizados, os catadores de recicláveis carregam boa parte da responsabilidade pela economia circular, mas a organização em cooperativas ganha espaço, com mais segurança e dignidade para os trabalhadores.
Localizada no movimentado bairro industrial da Lapa de Baixo, na zona oeste da Cidade de São Paulo, em meio à fumaça despejada pelas fábricas e pelos milhares de veículos que trafegam pela engarrafada Marginal Tietê, a Cooperativa de Reciclagem Crescer respira plástico, vidro, metal e papel. Em um contínuo vaivém de caminhões, chegam ao local, diariamente, em torno de 12 toneladas de resíduos recicláveis coletados nos domicílios da capital paulista e em grandes empresas parceiras. Despejados no galpão de 1,2 mil metros quadrados, tem início o processo de triagem e classificação.
Primeiro, os resíduos formam uma pilha de 10 metros diante de uma esteira elevatória de 7 metros, que os transporta até outra esteira de 18 metros. Diante dela, homens e mulheres alijados do mercado de trabalho convencional separam os 32 tipos de recicláveis em grandes sacos de plásticos — as big bags —, dispostos abaixo da plataforma. Uma vez limpo, moído, prensado ou fundido, conforme o tipo, o material é vendido para as indústrias de reciclagem, a maioria em cidades do interior de São Paulo e em Estados vizinhos, como o Paraná, que abriga recicladoras de aparas de papel.
Nessas empresas, são transformados em embalagens e outros itens que retornam ao mercado, concluindo o ciclo da economia circular. Um processo virtuoso, mas que padece do desconhecimento de boas práticas por parte da sociedade, da ausência de políticas públicas e, principalmente, do preconceito da população, que ainda enxerga como cidadão de segunda classe o catador que perambula pelas ruas, ou o trabalhador que atua nas cooperativas.
“Houve uma evolução de 20 anos para cá”, observa Telines Basílio, conhecido como Carioca, ex-catador e atual presidente da Cooperativa de Coleta Seletiva da Capela do Socorro (Coopercaps) e da Confederação Nacional de Cooperativas de Trabalho e Produção de Recicláveis (Conatrec). “Antes, o perfil era de catadores e catadoras informais, mas, com o crescimento das cooperativas e o compromisso de empregar idosos, refugiados e egressos do sistema prisional, ganhamos mais respeito. Mas ainda há preconceito e invisibilidade dessa categoria que presta um serviço tão essencial”, reforça.
Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2024, realizado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), 41,5% dos resíduos são destinados de maneira inadequada, já que os lixões ainda recebem 35% de tudo o que é descartado no País. A mesma pesquisa revela que apenas 8% dos resíduos secos foram encaminhados para a reciclagem. Isto é, 6,7 milhões de toneladas de recicláveis não cumprem o ciclo da economia reversa. O estudo também concluiu que 67,2% do encaminhamento ocorreu por meio de catadores informais, que venderam o material para ferros-velhos, enquanto apenas 32,8% do material coletado veio das concessionárias municipais, de empresas e de cooperativas. Segundo a Abrema, apenas 32% dos municípios brasileiros contam com coleta seletiva.

Os números do setor, ainda modestos, apontam para um lado da reciclagem invisível para a maioria dos brasileiros. A Conatrec reúne 153 cooperativas de sete Estados mais o Distrito Federal, as quais congregam 3.755 cooperados, registrados pelo modelo de cooperativismo, remunerados conforme a produção e a receita auferida pela cooperativa, com direitos trabalhistas assegurados — equipamentos de segurança, seguro de vida por acidentes de trabalho, contribuições para a Previdência Social, descanso anual remunerado e bonificação de fim de ano. Em média, a remuneração mensal de um cooperado varia entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. No entanto, no universo da reciclagem, o volume mais expressivo da mão de obra ainda é de catadores informais. Segundo estimativa do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), há aproximadamente 800 mil catadores de materiais recicláveis.
No caso do município de São Paulo, as cooperativas recebem um subsídio direto da prefeitura para pagamento de aluguel e despesas de manutenção. “Aqui, somos mais maduros. Fora de São Paulo, falta conhecimento do modelo de cooperativismo”, sustenta Jair do Amaral, presidente da Federação Paulista de Cooperativas de Reciclagem (Fepacoore) e fundador da Crescer, que conta com 62 cooperados — de jovens até então desempregados a idosos em busca de recomeços e renda.
É o caso da cearense Maria Audie, de 76 anos, mãe de dois filhos e avó de dois netos, há 16 anos na função de triagem de materiais. “O trabalho me mantém ativa e com saúde. Não penso em parar e quero trabalhar por pelo menos mais dez anos”, assegura. Há um ano na mesma função, o também cearense Osmar Lopes da Silva, de 69 anos, trabalhou por décadas como ajudante de pedreiro. Desempregado, ofereceu-se para trabalhar na cooperativa e diz que está feliz com a atividade. Segundo Amaral, o repasse mensal de R$ 60 mil que a Crescer recebe da Prefeitura de São Paulo é suficiente para manter a cooperativa, mas ele defende a adoção de um modelo semelhante ao praticado em Guarulhos, cidade da Grande São Paulo onde a prefeitura remunera pelos serviços ambientais prestados pelas toneladas de resíduos que deixam de ir aos aterros sanitários.
Valor de mercado
Na reciclagem, cada material equivale a uma commodity, com preços que variam de acordo com o interesse do mercado. A principal receita das cooperativas vem dos plásticos. O quilo de PET (politereftalato de etileno) é vendido para as indústrias por R$ 4,50, e o quilo do polietileno de alta densidade, como as embalagens de xampu e detergente, está cotado a R$ 4. O item mais valioso é a latinha de alumínio, R$ 12 por quilo. Mas esse produto é raro nas cooperativas em razão da atuação dos catadores de rua, que historicamente dominam o mercado. Segundo a Recicla Latas, associação mantida pelos fabricantes e recicladores de alumínio, o índice de reciclagem em 2024 foi de 97,3%, patamar mantido há 16 anos — em 2022, chegou a 100%. Fica evidente a força da informalidade na economia circular.
A indústria brasileira de reciclagem processa mais de 15 milhões de toneladas de materiais todos os anos, ao valor de R$ 80,7 bilhões, segundo pesquisa da Mastersenso Consultoria Industrial. O Brasil ainda desperdiça um grande potencial em reciclagem de materiais, principalmente no pós-consumo. Anualmente, cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos são geradas, 50% de orgânicos, 30% de recicláveis e 20% de sobras e resíduos higiênicos.
Apesar de ainda haver muito a ser feito para um manejo ideal dos resíduos produzidos, há avanço referente aos serviços municipais de coleta de resíduos sólidos, tanto orgânicos quanto recicláveis. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a coleta por caminhões atingiu 86,9% dos 77,3 milhões de domicílios brasileiros em 2024, o que representa crescimento em relação a 2016, quando era de 82,7%. Por sua vez, setores da sociedade civil têm chamado a atenção para a importância da economia circular.
Cristiane Cortez, assessora do Conselho de Sustentabilidade da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), explica que a Entidade prioriza a divulgação da logística reversa entre os associados, por meio de parcerias com associações de eletroeletrônicos, lâmpadas e óleo vegetal. “Os estabelecimentos que contam com pontos de coleta seletiva ganham pontos com o cliente”, opina. A Federação divulga suas ações por meio de material distribuído para as associações parceiras, que atuam como gestoras na orientação dos pontos de descarte, com código QR e adesivos de fácil visibilidade para os consumidores. “Uma das principais recomendações é quanto à obrigatoriedade da logística reversa nos casos em que a coleta de materiais recicláveis supere 200 litros diários”, reforça Cristiane. Até esse volume, os resíduos podem ser colocados em sacos plásticos adequados e coletados pelas concessionárias. Acima dessa quantidade, no caso dos recicláveis, as empresas devem procurar uma cooperativa ou um local autorizado de comercialização de sucata.
Iniciativa paulistana
Lançada em 2018 na capital paulista, a plataforma Recicla Sampa tornou-se, em pouco tempo, uma referência em matéria de educação ambiental. Recebeu o prêmio internacional IF Design Award 2025, no Japão, em razão de sua originalidade estética e do seu impacto social. “Somos a maior base de dados de pontos de reciclagem do Brasil, incluindo iniciativas públicas, privadas e do terceiro setor. Não há plataforma semelhante à nossa”, comemora Felipe Soutello, idealizador do projeto e sócio da agência D4G do Recicla Sampa.
Na plataforma, o usuário encontra informações sobre a reciclagem em São Paulo, como os endereços dos mais de 120 pontos de coleta de recicláveis — os ecopontos —, os dias e os horários da coleta seletiva nas ruas e conteúdo de educação ambiental para estudantes, além de áudios e vídeos sobre o setor e atividades das cooperativas, com participações do rapper Thaíde, do ex-VJ da MTV Cazé Pessini, e da influencer Karina Pegolato. “O público é majoritariamente feminino e as áreas mais acessadas são as dos ecopontos e dos dias e horários de coleta seletiva”, detalha Soutello.
Segundo o executivo, o custo anual do projeto é de aproximadamente R$ 5 milhões, recursos que vinham das concessionárias Loga e Ecourbis, que detinham o contrato de coleta urbana desde 2004. Em 2024, os contratos dessas concessionárias foram renovados por mais 20 anos pela Prefeitura de São Paulo, mas a obrigatoriedade da destinação da verba não foi incluída nos termos de renovação, o que resultou em uma nova estratégia por parte do Recicla Sampa. “O projeto continua, não vai parar. Estamos buscando patrocínios de marcas e parcerias com cooperativas, mas vamos manter a nossa independência. Não seremos reféns das concessionárias”, garante Soutello, que vem mantendo a plataforma no ar com recursos de sua agência. A principal mudança, esclarece, foi a paralisação na produção de audiovisuais. A única queixa é quanto ao envolvimento do setor público. “Em São Paulo, a prefeitura poderia ser mais engajada na reciclagem e na separação de resíduos”, ressalta.
Por meio da assessoria de imprensa, sem explicar as razões da descontinuidade do apoio ao projeto, a agência municipal SP Regula, responsável pela gestão dos contratos, informou que atualmente as concessionárias mantêm os programas Ver de Perto (da Ecourbis), e Ecoeducação (da Loga). Segundo o comunicado, “já foram realizadas aproximadamente 19 mil ações em instituições de ensino, empresas e órgãos públicos”. O comunicado acrescenta que as concessionárias estão elaborando novos planos de atuação, alinhados com os direcionamentos estabelecidos nos contratos e as inovações tecnológicas, a fim de aprimorar os serviços prestados e aumentar a eficiência na gestão de resíduos, “sempre com foco em sustentabilidade e educação ambiental”.
Gargalos do círculo
Primeira mulher a ocupar a presidência da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), professora na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) e especializada em Direito Ambiental, a advogada Patrícia Iglecias critica a bitributação que incide sobre os produtos reciclados. “Ela penaliza o setor da reciclagem e é um gargalo para a economia circular”, destaca. Por isso, a advogada defende uma legislação exclusiva para os reciclados. Hoje, a maioria dos Estados cobra o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de produtos reciclados, com exceção de algumas unidades da Federação, como São Paulo, Minas Gerais e Paraná, que contam com legislações específicas para produtos oriundos de cooperativas e que circulem internamente. Há também a polêmica sobre a proibição de tomar créditos do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) para as indústrias de reciclagem, que acabam pagando esses tributos mesmo quando já foram cobrados na origem do material. A questão chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas ainda não está equacionada. “A expectativa é que seja definida claramente com a Reforma Tributária”, revela Patrícia.
Paulo Ziulkoski, presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), pontua que os desafios para a sustentabilidade do mercado de reciclagem vão além da bitributação e revelam uma falta de estrutura histórica do País. “Há uma concentração de indústrias de reciclagem em poucas regiões, dificuldades logísticas, ausência dessas indústrias para alguns tipos de materiais e também a volatilidade do valor dos recicláveis no mercado, que prejudica a estabilidade financeira dos catadores”, enumera.
Segundo Ziulkoski, os municípios têm buscado fazer a sua parte na gestão de resíduos sólidos, mas as pequenas cidades, aquelas com até 50 mil habitantes, têm mais dificuldades de conseguir apoios técnico e financeiro para eliminar lixões e implantar aterros sanitários, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). “Uma solução seriam consórcios intermunicipais entre cidades maiores e menores, diante do alto custo das obrigações municipais e da necessidade de equipe técnica especializada”, sugere. De acordo com pesquisa da CNM, a maior parte dos recursos orçamentários do MMA, em 2022 e 2023, foi destinada ao pagamento de pessoal. “Em 21 anos, menos de 1% dos recursos foram direcionados a municípios e consórcios intermunicipais e não houve aumento significativo desde 2002”, afirma.
Matéria originalmente publicada no site da Revista Problemas Brasileiros, uma realização da Federação.
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