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Sustentabilidade

Transição energética vai além da troca de tecnologia

Eletrificação e economia circular mostram caminhos para reduzir emissões, otimizar recursos e gerar ganhos para os negócios

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Transição energética vai além da troca de tecnologia
Encontro apresenta soluções para tornar a transição energética mais eficiente, viável e circular

A transição energética não se resume a substituir uma tecnologia por outra. Exige rever processos, fazer contas, escolher parceiros, aproveitar melhor os ativos e pensar em todo o ciclo de vida dos produtos. Essa foi a principal convergência dos dois painéis da reunião de outubro do Conselho de Sustentabilidade da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), que mostrou como eletrificação, eficiência operacional e economia circular podem caminhar juntas para reduzir emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e outros poluentes e gerar valor para empresas de diferentes portes.

Os debates integram o pilar de transição energética da Agenda Verde da Entidade, que defende a diversificação da matriz e a ampliação do uso de fontes mais limpas, associadas à redução de custos e ao aumento da competitividade.

O presidente do Conselho de Sustentabilidade, José Goldemberg, chamou a atenção para um cenário em rápida transformação e para a necessidade de antecipar decisões. “O mundo de amanhã, nos próximos meses, nos próximos anos, não vai ser o mesmo”, afirmou. Para ele, olhar adiante significa conhecer soluções que já estão saindo do papel e entender “o que as empresas estão começando a fazer para se preparar para o futuro”.

Eletrificar começa pela operação

No primeiro painel, o diretor de Logística do Carrefour Brasil, Ricardo Ramos, mostrou que trocar diesel por eletricidade, sozinho, não garante sustentabilidade nem retorno financeiro. Antes de escolher a tecnologia, é preciso entender distâncias, rotas, capacidade de carga, autonomia, infraestrutura e produtividade dos veículos.

A experiência envolveu as entregas das lojas Express. Como 85% das unidades estão concentradas em um raio de 50 quilômetros, a distribuição urbana mostrou-se adequada à autonomia dos veículos elétricos. A companhia também adotou baús intercambiáveis, permitindo que o caminhão continue rodando enquanto outro compartimento é carregado.

A combinação aumentou o aproveitamento dos veículos. O tempo de permanência no centro de distribuição caiu de cerca de 58% para 23% da jornada, enquanto a capacidade passou de dois para até três giros diários. Como resultado parcial, o projeto registra redução de aproximadamente 300 toneladas de CO₂ por ano, aumento de 33% na capacidade de entrega e queda de cerca de 12% no custo do frete.

“É necessário que o investimento também se pague e pare de pé”, destacou Ramos. Segundo o executivo, a experiência ajuda a romper a percepção de que a eletrificação representa, necessariamente, um custo adicional. Quando a operação e a tecnologia são planejadas em conjunto, a sustentabilidade pode também gerar a eficiência.

Ricardo Ramos, diretor de Logística do Carrefour Brasil (foto: divulgação) 

Começar pequeno é possibilidade estratégica

Para pequenos e médios negócios, o aprendizado é especialmente relevante: não é necessário eletrificar toda a operação de uma vez. O primeiro passo pode ser identificar rotas curtas e recorrentes, testar a tecnologia, medir os resultados e ampliar a escala somente quando houver viabilidade.

Além disso, o modelo de investimento faz diferença. Na experiência apresentada, veículos, carregadores e infraestrutura poderiam exigir entre R$ 4 milhões e R$ 5 milhões caso o projeto fosse bancado diretamente pela companhia. A alternativa foi trabalhar com empresas especializadas, distribuindo custos e riscos.

“É muito mais seguro buscar parcerias no mercado, com empresas que tenham experiência e tecnicidade no tema, do que tentar embarcar nessa jornada sozinho”, recomendou Ramos.

A bateria continua gerando valor

Se a eletrificação reduz a dependência de combustíveis fósseis, o avanço da mobilidade elétrica traz outra questão: o que fazer com as baterias quando apresentam problemas ou chegam ao fim da vida útil?

No segundo painel, o fundador e CEO da Energy Source, David Noronha, mostrou que a resposta não começa necessariamente pelo descarte. Dependendo das condições, uma bateria pode ser reparada e retornar ao veículo, ganhar uma segunda vida em outra aplicação ou seguir para reciclagem e recuperação de materiais.

Na reciclagem de baterias automotivas e de eletroeletrônicos, o processamento permite recuperar componentes como lítio, níquel e cobalto, que podem voltar à indústria. De acordo com Noronha, a empresa já processou 1,5 mil toneladas de baterias, com mais de 97% de reaproveitamento.

É a chamada mineração urbana, a recuperação de matérias-primas dos produtos que já estão em circulação. Além de retornar à cadeia de baterias, parte desses materiais pode ganhar aplicações em segmentos como cerâmica, pigmentos e fertilizantes.

David Noronha, fundador e CEO da Energy Source (foto: divulgação)

Logística reversa entra na conta do varejo

O tema merece atenção especial do Comércio. Enquanto aproximadamente 95% das baterias automotivas descartadas pelas concessionárias chegam à reciclagem adequada, o índice das presentes em celulares, tablets, bicicletas, patinetes e outros eletrônicos não alcança 10%, segundo os dados apresentados.

Para o varejista, a orientação é estruturar a logística reversa com parceiros capazes de receber, separar, rastrear e encaminhar corretamente os materiais. Equipamentos podem ser recebidos com as baterias incorporadas e separados posteriormente por operadores especializados. Informação e campanhas para incentivar o consumidor a levar os produtos usados aos pontos de coleta também fazem parte dessa cadeia.

Há ainda um fator de segurança. Baterias de lítio descartadas junto com sucata podem provocar faíscas e incêndios durante o processamento. Separar, armazenar e encaminhar corretamente esses materiais é, portanto, uma medida ambiental e também de prevenção de acidentes.

Sustentabilidade precisa funcionar na prática

Os dois painéis apontaram que a transição energética começa pelo diagnóstico do negócio. Na logística, é preciso conhecer rotas, consumo, custos e infraestrutura antes de investir. Na circularidade, identificar baterias e equipamentos, sua destinação e parceiros que garantam rastreabilidade.

Eletrificação, reúso e reciclagem provam que reduzir emissões pode caminhar com eficiência e viabilidade econômica. “O desafio, agora, é transformar soluções já disponíveis em decisões capazes de gerar escala. Mais do que reduzir emissões, esse movimento pode melhorar processos, aproveitar recursos por mais tempo, reduzir custos e abrir novas oportunidades aos negócios”, encerrou Goldemberg.

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