Negócios
03/08/2026Apesar dos juros e da inflação, mercado de trabalho sustenta otimismo do consumidor em São Paulo
Queda da intenção de consumo aponta cautela das famílias diante de endividamento e juros elevados
A percepção das famílias paulistanas sobre a situação econômica recuou em julho, de acordo com a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) apontou queda de 2% em relação a junho, registrando 121,6 pontos. Na comparação com julho de 2025, contudo, houve alta de 11,6%.
Embora a confiança do consumidor permaneça em patamar de otimismo, o resultado de julho aponta para uma mudança no comportamento familiar. O mercado de trabalho continua sustentando a renda e evitando uma deterioração mais intensa das expectativas, porém esse impulso já não se traduz na mesma intensidade em aumento do consumo. O ambiente de juros elevados, inflação ainda concentrada em despesa essenciais e elevado comprometimento da renda está levando os consumidores a adotarem uma postura mais cautelosa nas decisões de compra.
O ICC varia de 0 a 200 pontos. Resultados iguais a 100 pontos indicam neutralidade; abaixo desse patamar, pessimismo; e acima, otimismo. Quanto mais o índice se aproxima de um desses extremos, maior é a intensidade do sentimento. Assim, estar acima dos 100 pontos não significa ausência de dificuldades, mas que as avaliações favoráveis superam as desfavoráveis.
[Gráfico 1]
Índice de Confiança do Consumidor (ICC) — série histórica
Fonte: FecomercioSP

De acordo com a FecomercioSP, o mercado de trabalho continua sendo o principal fator de sustentação da confiança dos consumidores. A combinação entre baixa taxa de desemprego, crescimento da renda e expansão da massa salarial preserva a capacidade de pagamento das famílias. Entretanto, esse ambiente favorável passou a conviver com um custo financeiro elevado. A inflação (ainda concentrada em itens essenciais), os juros em patamar restritivo e o elevado endividamento reduzem a margem disponível a novos gastos, tornando o consumidor mais seletivo quanto a preços, prazos, condições de pagamento e compras de maior valor.
Em julho, a queda da confiança atingiu todos os grupos pesquisados, com destaque para os lares com renda de até dez salários mínimos (-2,6%), os homens (-2,5%) e os consumidores com menos de 35 anos (-2,1%). Na comparação anual, entretanto, todos os segmentos apresentaram alta, sendo as maiores variações registradas entre esses mesmos grupos: homens (13,3%), consumidores com menos de 35 anos (12,9%) e lares com renda de até dez salários mínimos (12,4%). De acordo com a FecomercioSP, o comportamento desses grupos sugere mais sensibilidade às mudanças nas condições de emprego, renda disponível, inflação e acesso ao crédito.
[Tabela 1]
Índice de Confiança do Consumidor (ICC) – segmentos
Fonte: FecomercioSP

Entre os subíndices que compõem o ICC, o Índice das Condições Econômicas Atuais (ICEA) apresentou o maior recuo, com queda de 3,1%, atingindo 114 pontos. Contudo, na comparação anual, o subíndice cresceu 11%.
[Tabela 2]
Índice das Condições Econômicas Atuais (ICEA) – segmentos
Fonte: FecomercioSP

O Índice de Expectativas do Consumidor (IEC), por sua vez, recuou 1,4% em relação a junho, atingindo 126,7 pontos. Com exceção daqueles que recebem dez salários mínimos ou mais (avançando 0,5%), todos os demais componentes apresentaram resultados negativos. No comparativo com o mesmo período de 2025, houve alta de 12%, sendo que todos os segmentos registraram resultados positivos relevantes.
[Tabela 3]
Índice de Expectativas do Consumidor (IEC) – segmentos
Fonte: FecomercioSP

O comportamento simultâneo dos dois subíndices mostra que o consumidor passou a avaliar de forma mais cautelosa tanto sua situação econômica atual quanto as perspectivas para os próximos meses. Ainda que ambos permaneçam acima da linha de otimismo, o recuo disseminado entre praticamente todos os segmentos indica uma acomodação da confiança após o forte avanço observado ao longo dos últimos 12 meses.
Intenção de consumo das famílias recua
A Intenção de Consumo das Famílias (ICF), outro indicador da FecomercioSP — que varia de zero a 200 pontos —, também apresentou retração em julho. O ICF caiu 0,4%, atingindo 112,3 pontos. Foi a quarta queda seguida do indicador. A sequência de recuos reforça que a confiança elevada não tem sido suficiente para estimular o consumo na mesma intensidade. A população continua com disposição para consumir, porém prioriza gastos essenciais e posterga decisões que envolvam mais comprometimento financeiro. Na comparação anual, o indicador registrou alta de 6,3%.
[Gráfico 2]
Intenção do Consumo das Famílias (ICF) – série histórica
Fonte: FecomercioSP

Dentre as variáveis que compõem o indicador, momento para duráveis obteve a maior variação positiva em relação a junho (2,5%) e ao sétimo mês de 2025 (16,9%). Contudo, em termos de pontuação, o quesito ficou no patamar de insatisfação, com 81,6 pontos. Perspectiva de consumo subiu 1,7%, para 106,2 pontos, e cresceu 10,3%, na comparação anual. Nível de consumo variou 0,3%, passando para 89,7 pontos, e cresceu 7,5% no comparativo interanual. Já acesso ao crédito variou 0,1%, com 111,7 pontos, e alta de 9,9% em comparação com julho de 2025.
Por fim, emprego atual registrou queda de 0,8%, atingindo 141,8 pontos, e cresceu 6,9% no comparativo interanual. Perspectiva profissional registrou queda de 4,1%, alcançando 115,9 pontos e queda de 5,1% no comparativo com o mesmo mês de 2025. Renda atual sofreu queda de 1,1% em relação ao mês anterior (139,0 pontos) e alta de 4% no comparativo anual.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com o mercado de trabalho encerrando o trimestre finalizado em maio com uma menor taxa de desocupação (5,6%), o rendimento real crescendo 4% em um ano e a massa real de rendimentos avançando 4,8%, a ocupação e a renda estão amortecendo os efeitos dos juros elevados sobre o consumo. Por outro lado, mesmo com o cenário atual favorável, há mais prudência das famílias com compromissos de longo prazo: a inflação desacelerou para 0,16%, em junho, acumulando 4,64% em 12 meses, mas continua pressionando justamente grupos de maior peso no orçamento familiar, reduzindo a renda disponível para despesas discricionárias, afetando principalmente os consumidores de menor renda e limitando a recuperação do consumo.
Somado a esse quadro, há o endividamento — que atingia 74,1% dos lares na capital paulista em junho —, o maior nível em quatro anos. Com a taxa Selic em 14,25% ao ano, o custo das operações permanece elevado para os consumidores. Embora o ciclo de juros esteja desacelerando gradualmente, seus efeitos sobre o consumo permanecem relevantes. Assim, as operações de financiamento continuam mais caras, restringindo principalmente as compras de maior valor agregado. Assim, mesmo com o crescimento anual expressivo apresentado pelo quesito Momento para Duráveis (16,9%), a sua continuidade na zona de insatisfação (81,6 pontos) mostra que ainda não há evidências de normalização plena das compras financiadas, como veículos, móveis e eletrodomésticos.
[Tabela 4]
Intenção de Consumo das Famílias — componentes
Fonte: FecomercioSP

Entre as famílias que recebem até dez salários mínimos, o ICF ficou praticamente estável em julho, atingindo 111,5 pontos. Na comparação com o mesmo período do ano passado, porém, houve avanço de 7,7%. A maior queda entre as variáveis foi registrada no item Perspectiva Profissional (que caiu 3,4%, em relação a junho, e 6% na comparação com julho de 2025). Contudo, o quesito permaneceu na zona de otimismo com 115,1 pontos. Já Consumo Atual (86,8 pontos) e Momento para Duráveis (79,6 pontos), que cresceram 1,1% e 2,5%, respectivamente, ficaram abaixo da linha que separa o otimismo do pessimismo.
No comparativo interanual, momento para duráveis (19%), acesso ao crédito (13,5%), perspectiva de consumo (11%) e nível de consumo atual (10,7%) foram os principais destaques positivos.
[Tabela 5]
Intenção de Consumo das Famílias — até 10 salários mínimos
Fonte: FecomercioSP

Nos lares com renda superior a dez salários mínimos, o ICF recuou 1,7%, passando para 114,5 pontos, mas ficando 2,4% acima do registrado em julho de 2025. Perspectiva Profissional (-6%), Renda Atual (-2,7%), Acesso ao Crédito (-1,6%) e Nível de Consumo Atual (-1,6%) apresentaram as maiores quedas mensais.
[Tabela 6]
Intenção de Consumo das Famílias — Mais de 10 salários mínimos
Fonte: FecomercioSP

Na avaliação da FecomercioSP, os resultados do ICC e do ICF indicam que o consumidor paulistano continua otimista, porém significativamente mais criterioso em suas decisões de compra. O mercado de trabalho permanece como principal sustentação da confiança ao preservar empregos, renda e capacidade de pagamento. Entretanto, esse fator, de forma isolada, já não consegue incentivar o consumo na mesma intensidade observada nos últimos meses, diante do elevado custo do crédito, do maior comprometimento da renda familiar e da inflação ainda concentrada em despesas essenciais.
Essa conjuntura ajuda a explicar o desempenho recente do varejo paulista, marcado por crescimento moderado das vendas. Em vez de ampliar o consumo, os lares passaram a priorizar planejamento financeiro, pesquisa de preços e comparação entre canais físicos e digitais, além de adotarem mais seletividade nas compras, comportamento que deve continuar predominando enquanto persistirem condições financeiras restritivas.
Nesse contexto, torna-se ainda mais importante que as empresas aprofundem o conhecimento sobre o perfil do consumidor, utilizem ferramentas de inteligência de dados para segmentação de ofertas, fortaleçam programas de fidelização e preservem a gestão do capital de giro. Estratégias comerciais baseadas exclusivamente em descontos tendem a produzir resultados limitados em um ambiente de crédito caro, sendo mais eficiente agregar valor, conveniência, qualidade do atendimento e condições de pagamento compatíveis com a capacidade financeira das pessoas.
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