Negócios
22/04/2026Como reter talentos em tempos de escassez de mão de obra
Case da construtora Mbigucci, apresentado na FecomercioSP, mostra como cultura organizacional pode reduzir a rotatividade e atrair profissionais
A dificuldade de contratar e, principalmente, de reter trabalhadores tem pressionado empresas de diferentes setores, frente a um período de escassez de mão de obra. Na construção civil, o cenário é ainda mais evidente. Foi a partir dessa realidade que a empresária Roberta Bigucci, da construtora MBigucci, apresentou, durante reunião do Conselho de Serviços da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), no dia 13 de abril, um conjunto de práticas adotadas pela empresa para lidar com o problema de forma estruturada.
Com mais de quatro décadas de atuação, a companhia vivenciou momentos críticos de perda de profissionais e concorrência acirrada por mão de obra. Segundo Roberta, a falta não está apenas na quantidade de trabalhadores disponíveis, mas no interesse pelas funções tradicionais, que perderam atratividade ao longo do tempo. A percepção sobre condições de trabalho, a desvalorização histórica de algumas ocupações e a mudança de expectativas das novas gerações ajudam a explicar esse descompasso.
Ambiente que retém
Frente a essa situação, a estratégia da MBigucci foi reposicionar a experiência do colaborador dentro da empresa. O foco deixou de ser a contratação e passou a incluir, de forma mais consistente, o cuidado com o ambiente laboral, a segurança e o desenvolvimento humano. A lógica é simples, mas exige execução contínua: profissionais permanecem onde se sentem respeitados e valorizados, e não somente remunerados.
Roberta destacou que a empresa investiu em melhorias estruturais e em uma cultura de acolhimento, substituindo práticas antigas por condições mais adequadas. O impacto aparece no comportamento dos próprios funcionários, que passam a indicar a empresa e a construir vínculos de longo prazo. Em muitos casos, a permanência se torna parte do projeto de vida do trabalhador, o que reduz significativamente a rotatividade e os custos associados à reposição de equipes.
Outro ponto central foi a criação de canais efetivos de escuta. A empresa passou a incentivar sugestões e críticas internas, garantindo que as demandas fossem analisadas e, sempre que possível, implementadas. Em um dos ciclos, centenas de ideias foram incorporadas à rotina da organização, reforçando o senso de pertencimento e a percepção de que a gestão está aberta ao diálogo.
Tecnologia e cultura
A incorporação de tecnologia também entrou na equação, mas com um cuidado estratégico. Em vez de substituir funções, a empresa optou por reposicionar equipes. A criação de uma assistente virtual para atendimento ao cliente foi conduzida com participação dos colaboradores, que ajudaram a definir características e funcionamento da ferramenta.
“O resultado foi uma transição mais fluida, sem resistência interna. Com a automação de tarefas repetitivas, os profissionais passaram a atuar em atividades mais analíticas e estratégicas, o que elevou o nível de satisfação e reduziu o risco de desligamentos”, disse Roberta. A experiência mostrou que a tecnologia, quando bem comunicada, pode fortalecer — e não fragilizar — o vínculo entre empresa e equipe.
Além disso, a companhia avançou em processos de modernização produtiva, incorporando soluções industrializadas que reduzem a dependência de mão de obra em determinadas etapas, conforme contou a empresária. A medida responde tanto à escassez de profissionais quanto à necessidade de ganhar eficiência e previsibilidade nas entregas.
Engajamento como estratégia
Outro eixo relevante da atuação da Mbigucci é o investimento em iniciativas de engajamento que extrapolam a rotina operacional. Projetos internos voltados para ações sociais, ambientais e de desenvolvimento coletivo passaram a integrar o dia a dia dos colaboradores, fortalecendo vínculos e ampliando o sentido do trabalho.
Essas iniciativas, muitas vezes de baixo custo, têm efeito direto na retenção de talentos. Ao participar de projetos que dialoguem com valores pessoais, o trabalhador tende a desenvolver maior conexão com a empresa. O engajamento se reflete no ambiente organizacional e contribui para a construção de uma cultura mais sólida e resiliente diante das oscilações do mercado.
A experiência apresentada no Conselho de Serviços da FecomercioSP indica que enfrentar a carência de mão de obra passa, necessariamente, por uma revisão da forma como as empresas se relacionam com seus profissionais. Em um cenário no qual atrair trabalhadores se tornou mais difícil, criar condições para que eles permaneçam deixou de ser diferencial e passou a ser condição básica de competitividade.