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Economia

Consumidor paulistano continua seletivo, mas menos pessimista

Indicadores de junho avançam positivamente; melhoria da percepção das famílias ainda contrasta com um elevado nível de endividamento

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Consumidor paulistano continua seletivo, mas menos pessimista
Dados sugerem que parte dos lares continua acreditando em um quadro favorável para os próximos meses

As famílias paulistanas observaram melhorias nas condições atuais de consumo, indicando uma recuperação da confiança em junho. É o que releva o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), produzido mensalmente pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), que atingiu 124,1 pontos, com alta de 2,9% em relação a maio [gráfico 1]. No comparativo interanual, o índice avançou 9,9%. O resultado de junho mostra um avanço mais disseminado, tanto a percepção sobre a situação presente quanto às expectativas futuras evoluíram positivamente.

[GRÁFICO 1]

Índice de Confiança do Consumidor (ICC)

Série histórica (13 meses)

Fonte: FecomercioSP

Segundo a FecomercioSP, o mercado de trabalho exerce papel fundamental na sustentação da confiança e da intenção de compra, as quais refletem o comportamento otimista. No entanto, a política monetária ainda restritiva e o elevado custo de crédito continuam impondo moderação ao ritmo de expansão do consumo, afetando as limitações dos componentes ligados ao consumo efetivo e aos bens duráveis. 

A melhoria na percepção das famílias ainda contrasta com um elevado nível de endividamento. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da FecomercioSP, mais de 70% das famílias paulistanas permanecem endividadas, ao passo que as inadimplentes seguem acima dos níveis observados antes do ciclo inflacionário recente. Dessa forma, o cenário limita a capacidade de expansão do consumo, visto que uma parcela relevante da renda continua comprometida com pagamento de dívidas, reduzindo espaço para novas compras e o consumo com bens e serviços não essenciais.

Famílias estão mais otimistas, mas sem mudanças estruturais

Os componentes do ICC marcaram uma mudança importante comparada com o mês de maio, deixando de serem sustentados apenas pelas expectativas e voltando a progredirem na avaliação das condições correntes. O Índice das Condições Econômicas Atuais (ICEA) avançou para 117,6 pontos, altas de 4,6%, no mês, e de 9%, na comparação interanual. Já o Índice de Expectativas do Consumidor (IEC) atingiu 128,4 pontos, com crescimentos de 1,9%, na margem, e de 10,5%, em relação a junho do ano anterior [tabela 1]. 

[TABELA 1]

Índice de Confiança do Consumidor (ICC) — renda, gênero e idade

Fonte: FecomercioSP

O resultado do ICEA sugere que as famílias perceberam melhoria nas condições presentes, mas ainda não há evidências de uma mudança estrutural do ambiente econômico. A recuperação mensal ocorreu de forma disseminada entre todos os segmentos pesquisados, com destaque para consumidores com renda inferior a dez salários mínimos (6,1%), mulheres (4,7%) e consumidores com 35 anos ou mais (4,6%). No comparativo interanual, também se observa alta em todos os segmentos, com destaque para aqueles que ganham menos de dez salários mínimos (11,2%), consumidores com 35 anos ou mais (11%) e mulheres (10,6%).

Os dados do IEC, por sua vez, sugerem que parte dos lares continua acreditando em um quadro favorável para os próximos meses, sustentado pela expectativa de progresso gradual das condições financeiras. Por outro lado, o comportamento das famílias com renda superior a dez salários mínimos sofreu leve recuo de 1% no mês. O movimento pode indicar mais cautela desse público diante da alta da taxa Selic, da desaceleração econômica esperada para o segundo semestre e das incertezas associadas ao cenário internacional.

Além disso, programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola Brasil, também podem contribuir para melhorar as expectativas de parte dos consumidores, especialmente entre as famílias de menor renda. Entretanto, os efeitos surgem, primeiro, nas expectativas e, posteriormente, nas condições efetivas de consumo.

Mercado de trabalho e renda sustentam consumo das famílias 

A Intenção de Consumo das Famílias (ICF), também mensurada pela FecomercioSP, na capital paulista atingiu 112,8 pontos em junho — com leve recuo de 0,4% em comparação com maio. Apesar da acomodação mensal, o indicador permanece em patamar elevado, apresentando crescimento de 7,3% na comparação com junho de 2025 e evidenciando que a disposição das famílias para consumir continua superior ao ano anterior [gráfico 2]. 

[GRÁFICO 2]

Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF)

Série histórica (13 meses)

Fonte: FecomercioSP

O subíndice do ICF Emprego Atual permanece em patamar elevado (142,9 pontos), com crescimento de 6,8% em relação a junho do ano passado. O indicador segue como principal sustentação da intenção de consumo, contribuindo para reduzir a percepção de risco das famílias e reforçando a confiança quanto à manutenção da renda [tabela 2].

O item Perspectiva Profissional (120,9 pontos) sugere que os consumidores continuam avaliando positivamente as perspectivas futuras, embora com mais cautela. O resultado estável do subíndice Renda Atual (140,5 pontos) reforça a percepção de estabilidade da renda familiar, mas sem aceleração do poder de compra, já que a inflação continua limitando ganhos mais expressivos de renda disponível. 

Entretanto, os indicadores Nível de consumo atual (89,4 pontos) e Momentos para Duráveis (79,6 pontos) permanecem abaixo dos 100 pontos. Apesar de o consumo atual ter avançado 8,2% em relação ao ano anterior, o nível pessimista aponta que a execução do consumo ainda ocorre de forma moderada. Já a alta interanual de 9,7% na perspectiva, sinaliza que os consumidores mantêm expectativa favorável para as compras nos próximos meses, embora com menor intensidade do que a observada no início do ano.  

[TABELA 2]

Intenção de Consumo das Famílias (ICF) — Faixa de renda

Fonte: FecomercioSP


Diferenças entre as faixas de renda permanece

Entre as faixas de renda, o indicador das famílias com renda de até dez salários mínimos atingiu 111,5 pontos, mantendo-se praticamente estável em relação a maio e registrando crescimento de 8,9% na comparação com junho de 2025. Os principais destaques desse grupo foram os itens Momento para Duráveis, que avançou 20,6% em 12 meses, alcançando 77,7 pontos; Acesso ao Crédito, com alta de 13,9% (111 pontos); Perspectiva de Consumo, que cresceu 11,7% (105,2 pontos); e Nível de Consumo Atual, que registrou expansão de 11,2% (85,8 pontos). Apesar da evolução observada, os indicadores relacionados ao consumo efetivo permanecem abaixo da linha, indicando que a recuperação do consumo ainda ocorre de forma gradual.

Já quanto aos consumidores com renda superior a dez salários mínimos, o ICF alcançou 116,5 pontos, com queda mensal de 1% e crescimento de 3% em relação a junho de 2025. Embora permaneçam em patamar mais elevado, esses consumidores mostraram mais cautela no mês, especialmente nos indicadores relacionados ao crédito e à compra de bens duráveis. O componente Momento para Duráveis recuou 4% em comparação com maio, mesmo resultado que Acesso ao Crédito, sugerindo mais sensibilidade ao custo de oportunidade em um ambiente de juros ainda elevados.

A diferença entre as faixas de renda continua apontando para uma recuperação heterogênea do consumo. Em junho, o ICF das famílias de maior renda superou o das famílias de menor renda em aproximadamente 5 pontos, mantendo o padrão observado ao longo dos últimos meses. A maior diferença permanece concentrada no Nível de Consumo Atual, em que os consumidores de maior renda registram 99,6 pontos, contra 85,8 pontos entre aqueles com renda de até dez salários mínimos.

Análise para o varejo

Para o varejo, o resultado de junho é positivo, uma vez que revelam que a confiança do consumidor paulista retoma a sua força, sustentada tanto pela melhoria nas condições atuais quanto pela manutenção de expectativas positivas. Assim, reduzem-se os sinais de cautela, mas ainda não se eliminam os obstáculos impostos pelo ambiente financeiro restritivo.

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