Notamos que você possui
um ad-blocker ativo!

Para acessar todo o conteúdo dessa página (imagens, infográficos, tabelas), por favor, sugerimos que desabilite o recurso.

Editorial

A geopolítica adotada pelos governos deve ser baseada em fatos científicos

Do passado à atualidade, exemplos mostram como a ciência é essencial para orientar decisões geopolíticas e evitar crises

Ajustar texto A+A-

A geopolítica adotada pelos governos deve ser baseada em fatos científicos
Sem ciência, a geopolítica erra — e o mundo paga o preço

Por José Goldemberg*

Num mundo conturbado, com guerras no Oriente Médio, Ucrânia, África e subcontinente indiano, pode parecer ingênuo lembrar a importância da ciência para resolver os problemas que afligem nossa civilização. Sucede que essas guerras são consequências de análises geopolíticas e a sua formulação depende criticamente de avaliações científicas. Isto é o que aconteceu no passado e não está acontecendo agora.

No início do século 19, um dos grandes problemas da Inglaterra era o aumento da população e da pobreza resultante. Thomas Malthus, um clérigo e cientista qualificado, identificou claramente a origem do problema ao perceber que a população crescia em progressão geométrica (1, 2, 4, 8, 16...) porque as famílias tinham mais de dois filhos, enquanto a produção de alimentos crescia apenas em progressão aritmética (1, 2, 3, 4, 5...), isto é, do aumento da área dedicada à agricultura com tecnologias tradicionais.

Malthus era o que se chama hoje de “reacionário” e se opôs a qualquer programa de assistência e ajuda aos pobres, defendendo a ideia de que a “miséria”, a morte precoce e até as guerras eram a melhor política para o controle da população. As ideias de Malthus legitimaram as políticas da aristocracia inglesa oposta à adoção de políticas sociais. Variantes modernas das ideias de Malthus são o “apartheid” na África do Sul e a situação dos palestinos em Israel.

O desenvolvimento de técnicas agrícolas, com consequente aumento de produtividade, e revolução industrial que utilizava a mão de obra rural abundante resolveram o problema. A população mundial aumentou extraordinariamente desde então sem grandes crises e deve se estabilizar até o fim do século.

Outro exemplo importante da influência da ciência para embasar a solução de problemas políticos e geopolíticos ocorreu na guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética (entre 1945 e 1991) com a produção crescente de armas nucleares nos dois países e testes nucleares na atmosfera.

Na segunda metade do século 20, os líderes destes países decidiram limitar a produção de armas nucleares enfrentando a oposição dos militares nos seus países que alimentavam uma geopolítica de enfrentamento militar que teria levado à destruição da civilização como a conhecemos.

Os presidentes John Kennedy e Ronald Reagan se cercaram de assessores científicos que os convenceram a adotar medidas que limitassem a produção de armas nucleares. Segundo Henry Kissinger, a paz gerada pelo medo da destruição mútua – a dissuasão nuclear – evitou uma terceira guerra mundial entre as grandes potências durante 75 anos, o mais longo período da História em que isso ocorreu.

Isso não está acontecendo agora no conflito entre Estados Unidos e Irã. A justificativa para a guerra desencadeada pelos Estados Unidos contra o Irã tem sido a de que o país estava na “iminência” de produzir armas nucleares. Essa informação é incorreta e se deve, provavelmente, à ausência de assessores científicos nas negociações que estavam ocorrendo entre os dois países. Ao que parece, os negociadores americanos, liderados por um homem de negócios sem competência técnica, acreditavam que o Irã disporia em semanas do urânio necessário, o que não era o caso. Urânio precisa ser “enriquecido” a um grau superior a 90% para a construção de armas e o Irã tinha atingido apenas o nível de 60%. Além disso, construir um artefato nuclear envolve outras técnicas que exigem tempo. Várias autoridades brasileiras repetem a mesma falácia ao dizer que o Brasil é uma grande potência nuclear por possuir minerais de urânio.

As consequências geopolíticas dessa guerra são muito mais graves. Há décadas, os cientistas têm alertado governos para o fato de que as reservas de petróleo (e de outros combustíveis fósseis, como carvão e gás natural) são finitas, e distribuídas e exploradas de forma muito desigual em torno do mundo. A maioria delas se encontra justamente no Oriente Médio e bastou um conflito armado para fechar o Estreito de Ormuz no Irã e provocar uma crise econômica mundial análoga à que ocorreu em 1974.

O problema é agravado pelo fato de que o uso de combustíveis fósseis é a principal fonte de gases responsáveis pelo aumento da temperatura da Terra e das mudanças climáticas resultantes.

A solução para esses problemas é reduzir o uso dos combustíveis fósseis e estimular o uso de fontes renováveis de energia, o que estava ocorrendo muito lentamente e foi agravado agora pelo fato de que o presidente Trump é um “negacionista” hostil a esse tipo de estratégia.

Neste caso, como nos outros problemas discutidos acima, a geopolítica adotada pelos governos deve ser baseada em fatos científicos. A promoção do uso de fontes renováveis de energia e sobretudo do uso crescente de energia elétrica é a única política correta a ser seguida para reduzir a dependência do uso de petróleo e gás. Energia elétrica, em geral, é gerada localmente e não pode ser exportada facilmente como petróleo ou gás.

Não há geopolítica diferente que vá evitar problemas como os que enfrentamos hoje, e a China já está seguindo esse caminho.

* José Goldemberg é presidente do Conselho de Sustentabilidade da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

Artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S.Paulo em 22 de abril de 2026.

Inscreva-se para receber a newsletter e conteúdos relacionados

* Veja como nós tratamos os seus dados pessoais em nosso Aviso Externo de Privacidade.
Fechar (X)