Economia
22/04/2026Endividamento elevado muda padrão de consumo e pressiona empresas
Consumidor segue ativo, mas mais fragilizado, dependente de crédito e sensível a preço
Com 71,1% das famílias paulistanas endividadas no mês de março, o padrão de consumo mudou e começa a pressionar o desempenho das empresas, especialmente no Comércio e nos Serviços. Equivalente a cerca de 3,2 milhões de lares com dívidas, o índice aponta o comprometimento médio de 26,7% da renda.
O panorama foi detalhado durante reunião do Comitê de Relacionamento de Assessorias Econômicas e Especiais (CRAEE) da Federação do Comércio de Bens Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), no dia 15 de abril, que trouxe dados sobre o comportamento financeiro do consumidor, apresentados por Bruno Souza, assessor econômico da Federação. “O cenário revela uma mudança no papel do crédito dentro do orçamento doméstico, pois deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade para sustentar o consumo”, afirmou.
A pressão é mais intensa entre as famílias de menor renda, em que o endividamento atinge 74,5%, mas também se mantém elevado nas faixas superiores, com 61,3%. Esse quadro reduz a capacidade de ajuste financeiro e torna o consumidor mais cauteloso nas decisões de consumo. Para Souza, a consequência direta é um comportamento mais defensivo, com foco em itens essenciais e menos margem para gastos de maior valor.
Crédito sustenta consumo
O principal tipo de dívida é o cartão de crédito, com 79,3%, o principal instrumento de financiamento das famílias. Na prática, tem sido utilizado para cobrir despesas do dia a dia, e não apenas compras pontuais. “Hoje, o crédito funciona como uma ponte entre a necessidade e a capacidade de pagamento”, explicou.
Esse movimento mantém o consumo ativo, mas em menor qualidade. O consumidor segue no mercado, porém mais sensível a preços, buscando promoções e alternativas mais baratas. Ao mesmo tempo, há redução da liquidez, o que diminui as compras à vista e amplia a dependência do parcelamento como condição para consumir.
A tendência deve continuar: cerca de 11,4% dos consumidores pretendem contratar crédito nos próximos meses, dos quais 83% serão destinados ao consumo corrente. O dado reforça a leitura de que o crédito passou a sustentar despesas básicas, sem necessariamente estar atrelado a aumento de renda.
Impacto para os negócios
O enfraquecimento financeiro das famílias já se reflete no ambiente empresarial. O número de empresas inadimplentes no Brasil chegou a 8,9 milhões, com alta de 29% em relação ao ano anterior e um volume de R$ 213 bilhões em dívidas. Os setores mais dependentes do consumo doméstico concentram os maiores reflexos, com destaque para Serviços e Comércio.
Segundo o assessor, há uma transmissão direta desse movimento. “O problema que começou nas famílias está chegando ao balanço das empresas, principalmente aquelas mais expostas ao consumo recorrente”, disse Souza.
A inadimplência das famílias também avançou. Em março, 20,9% estavam com contas em atraso e tempo médio de 66 dias para regularização. O aumento de 1,6 ponto porcentual (p.p.) em um ano representa mais de 70 mil novas famílias inadimplentes, indicando mais dificuldade de recuperação financeira.
O ambiente de pressão aparece ainda no número de recuperações judiciais, que somaram 2.466 casos, um recorde histórico. O dado mostra que muitas empresas continuam operando, mas com elevado nível de endividamento e restrição de caixa.
Nesse contexto, a recomendação é ajustar a estratégia ao novo perfil do consumidor. Mais seletivo, com menos recursos disponíveis e maior dependência de crédito, ele exige políticas comerciais mais cautelosas. Entender esse comportamento deixou de ser diferencial e passou a ser condição para manter as vendas em um ambiente mais desafiador.