Economia
25/09/2026FecomercioSP propõe agenda para a transformação digital do Brasil
Propostas estabelecem diretrizes para o País avançar em economia digital, inovação e IA
Enquanto a tecnologia transforma a economia e as relações de trabalho e consumo, o Brasil ainda lida com desafios estruturais para avançar na transformação digital. Para o Conselho de Economia Digital e Inovação da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), o País deve acelerar esse processo com coordenação institucional, segurança jurídica, infraestrutura adequada, acesso a tecnologias críticas e políticas voltadas para o aumento da produtividade.
A fim de contribuir para esse objetivo, e com a preparação da sociedade, das empresas, dos trabalhadores e do Estado para a nova etapa da economia global, o conselho propõe uma agenda estratégica com o objetivo de reposicionar o Brasil nesse debate. O documento organiza as diretrizes em torno de um eixo central (a governança) e quatro eixos estruturantes: competitividade, fronteira tecnológica, resiliência e equilíbrio social. Confira as propostas da FecomercioSP:
Cinco eixos para reposicionar o Brasil na Economia Digital
Estratégia nacional coordenada
Na avaliação do conselho, um dos principais impasses do País é fortalecer a coordenação nacional da agenda digital. Isso significa articular e unificar iniciativas, garantindo previsibilidade regulatória e segurança jurídica. Metas públicas, indicadores, avaliações periódicas, redução das sobreposições entre as normas e aumento da eficiência das políticas públicas são algumas das necessidades.
O País já dispõe de instrumentos relevantes, como a Estratégia Brasileira para a Transformação Digital (E-Digital) e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê até R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028. Contudo, é preciso transformar diretrizes em metas executáveis e garantir continuidade entre diferentes ciclos de governo.
A somatização desses itens com a participação do setor produtivo, da academia e da sociedade civil permitiria corrigir rumos, reduzir conflitos institucionais e orientar investimentos públicos e privados às prioridades nacionais.
Digitalização, modernização e ampliação da infraestrutura
Outra preocupação apontada pelos conselheiros é a adoção tecnológica ainda desigual. Segundo a TIC Empresas 2025, apenas 17% dos negócios nacionais com dez ou mais pessoas ocupadas utilizavam IA, proporção que alcançava 50% entre as grandes empresas. A diferença aponta a necessidade de políticas específicas a pequenos e médios negócios, que sofrem mais restrições de crédito, conhecimento técnico e acesso a soluções digitais.
Nesse sentido, o conselho defende uma ampliação dos acessos à tecnologia, à inovação e ao crédito como condições para a transformação digital, a expansão da infraestrutura digital e a digitalização dos serviços públicos. Além disso, apoia as promoções da qualificação e da requalificação da força de trabalho, as reduções de barreiras regulatórias e de custos para a adoção tecnológica e o fortalecimento da inserção internacional do País, com semicondutores e cadeias tecnológicas estratégicas.
IA e soberania
A IA amplia a competição por dados, capacidade computacional, energias, semicondutores e talentos especializados. Nesse contexto, a avaliação dos especialistas é que o Brasil deve desenvolver capacidades nacionais em IA de fronteira e expandir a própria infraestrutura de supercomputação e capacidade computacional, além de estimular a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação tecnológica avançada.
Se o País almeja obter soberania, deve buscar fortalecer suas tecnologias estratégicas ligadas à defesa e se inserir nas cadeias globais de maior valor agregado. O PBIA prevê investimentos de até R$ 23 bilhões e inclui infraestrutura de alto desempenho, pesquisa, inovação empresarial e melhoria dos serviços públicos. Na visão do conselho, é necessário que o País assegure a execução contínua e a conexão entre a pesquisa de ponta e aplicações capazes de elevar a produtividade e solucionar desafios nacionais.
O fortalecimento de cadeias estratégicas — como semicondutores, computação avançada, robótica, tecnologias quânticas e sistemas de defesa — deve considerar as competências já existentes no País e os segmentos em que a Nação pode ocupar posições de maior valor agregado. O Programa Brasil Semicondutores (Brasil Semicon) oferece uma base institucional que precisa ser articulada à política de inovação e à atração de investimentos.
Cibersegurança e apoio às PMEs
Os crimes digitais, cada vez mais frequentes e avançados, exigem que o Brasil fortaleça sua segurança cibernética, protegendo especialmente as infraestruturas críticas e os serviços essenciais. Dentre as empresas, as micro e pequenas são as mais afetadas por esse tipo de crime e as que detêm menos recursos e capacidade operacional para lidar com as suas consequências. É por isso que esses negócios precisam de apoio nesse processo, com orientações práticas, padrões proporcionais, formação profissional e recursos.
Ainda que a criação da Política Nacional de Cibersegurança (PNCiber), em 2023, e da Estratégia Nacional de Cibersegurança (E-Ciber), em 2025, signifiquem importantes passos nessa direção, o avanço ainda depende da governança operacional, da definição de responsabilidades, da integração entre estruturas públicas e privadas e de indicadores capazes de medir prevenção, resposta e recuperação.
Transformação digital para todos
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que 27% dos empregos em seus países-membros estão em ocupações com alto risco de automação. Embora isso não signifique o desaparecimento automático dos postos laborais, o dado reforça a necessidade de antecipar mudanças, atualizar competências e apoiar trabalhadores e empresas durante a reorganização produtiva.
Por isso, medidas para democratizar o acesso à tecnologia são fundamentais. É preciso promover o letramento digital da população, ampliar programas de qualificação e requalificação profissionais, apoiar a adaptação dos trabalhadores aos impactos da IA e da automação e estimular a inclusão produtiva e o acesso às oportunidades da economia digital. Também é necessário desenvolver mecanismos de transição aos setores e ocupações mais afetados pelas transformações tecnológicas.
A política de inclusão digital precisa, portanto, ir além do acesso à internet e incorporar educação continuada, qualificação profissional e estímulos à criação de novas atividades econômicas. O acompanhamento dos reflexos sobre emprego, renda e consumo também será fundamental para direcionar ações aos setores, territórios e grupos mais expostos.