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Sustentabilidade

Plano Clima entra em jogo para redefinir as decisões de investimento e operação no Brasil

Custos, crédito e cadeias produtivas já sentem os efeitos, enquanto setor empresarial busca clareza sobre como se adaptar

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Plano Clima entra em jogo para redefinir as decisões de investimento e operação no Brasil
A gestão de risco climático deixa de ser uma agenda reputacional e passa a ser uma questão operacional

O Plano Clima 2024–2035 já começa a impactar custos, crédito e operações no Brasil. Mas muitas empresas ainda tentam entender qual será, na prática, o seu papel dentro dessa estratégia. A dificuldade de traduzir as diretrizes para a realidade dos negócios, principalmente no Comércio e nos Serviços, convive com efeitos sentidos no dia a dia, por meio da energia, da logística e das cadeias produtivas.

Em uma conjuntura marcada por crises energéticas, eventos climáticos extremos e pressão crescente por descarbonização, o tema foi destaque na reunião de abril do Conselho de Sustentabilidade da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). O encontro discutiu como a estratégia climática do governo já começa a afetar — direta ou indiretamente — o dia a dia dos negócios.

Apresentado por Thaynara Espíndola Pereira, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o plano reúne mais de 1,5 mil páginas de metas, ações de redução de emissões, medidas de adaptação a eventos extremos e diretrizes para financiamento e inovação. O objetivo é conduzir o País rumo à neutralidade de emissões até 2050, ao mesmo tempo que prepara as empresas e as cidades para os impactos climáticos já em curso.

Plano define metas e pressiona cadeias produtivas

Embora seja uma política pública, o Plano Clima começa a se materializar na economia por meio de mudanças estruturais, principalmente na forma como os setores produtivos serão cobrados por resultados.

O eixo de mitigação distribui metas de redução de emissões entre áreas como Energia, Transporte, Indústria e Agropecuária, criando um efeito em cadeia que chega às empresas por diferentes frentes. As principais pressões devem vir de:

  • energia mais eficiente e com menos emissão;
  • logística e transporte menos intensivos em carbono;
  • exigências de fornecedores e cadeias produtivas.

“A ideia é compartilhar a responsabilidade entre os setores para que o Brasil consiga cumprir seus compromissos internacionais”, explicou Thaynara.

Dentre as ações com reflexos diretos, destacam-se a eletrificação de frotas, a expansão de energias renováveis e a recuperação de áreas degradadas. Já as ações estruturantes criam as condições para viabilizar essa transição, com foco em regulação, financiamento e inovação.

Adaptação já afeta operação e receita das empresas

Se a mitigação aponta para o futuro, a adaptação revela um problema já presente. O plano prevê centenas de ações para preparar as cidades e as atividades econômicas para os eventos extremos — os quais já comprometem o funcionamento do Comércio e dos Serviços. Interrupções logísticas, queda no fluxo de consumidores e prejuízos em regiões turísticas são alguns dos efeitos observados.

“A adaptação é essencial, porque esses eventos já estão acontecendo e tendem a se intensificar”, afirmou a representante do MMA.

Para o setor empresarial, a gestão de risco climático deixa de ser uma agenda reputacional e passa a ser uma questão operacional.

Crédito verde e novas exigências

Um dos pontos mais relevantes para as empresas é o financiamento da transição climática. O Plano Clima articula instrumentos como o Fundo Clima, que terá R$ 27,5 bilhões disponíveis em 2026, com a meta de alinhar todos os projetos financiados com as diretrizes da política climática. Isso abre espaço (e pressão) em três frentes:

  • acesso a crédito verde, inclusive para empresas sem metas obrigatórias;
  • inovação em tecnologia e sustentabilidade nos modelos de negócios;
  • capacitação profissional para a economia de baixo carbono.

A transição deixa de ser apenas ambiental e passa a ser também econômica.

Empresas ainda buscam se enxergar no plano

Apesar do avanço institucional, uma questão levantada no debate foi a dificuldade de tradução do plano para a realidade das empresas, em especial aquelas que não têm metas obrigatórias de emissão.

Na avaliação geral, as ações ainda aparecem de forma mais clara nos setores regulados, como Energia e Indústria, enquanto o Comércio e os Serviços precisam interpretar os impactos de forma indireta.

A própria representante do MMA reconheceu esse desafio ao explicar que os efeitos chegam às empresas principalmente por meio de consumo de energia, logística e cadeias produtivas.

O presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP, José Goldemberg, também trouxe um contraponto relevante: a execução. Ele destacou que o plano ainda precisa avançar na concretização das ações. “Hoje, ele funciona mais como diretriz do que como plano concreto”, avaliou.

A observação reforça ainda um dos principais entraves da política climática, que é a coordenação entre diferentes áreas do governo. Segundo Thaynara, a implementação depende da articulação entre ministérios e nem sempre há convergência, especialmente em setores estratégicos, como o de Energia. “O plano estabelece diretrizes, mas a implementação depende das pastas setoriais e da articulação com os agentes econômicos”, afirmou.

Da crise à oportunidade: transição energética ganha força

O cenário internacional também influencia essa agenda. A instabilidade no setor energético global pode acelerar a transição para fontes renováveis — área em que o Brasil tem vantagem competitiva.

Para o MMA, o País tem potencial de liderar soluções em biocombustíveis, eletrificação e energia limpa, transformando riscos em oportunidades econômicas.

Essa visão dialoga com a atuação da FecomercioSP, que vem defendendo políticas que incentivem a descarbonização sem comprometer a competitividade das empresas, um dos pilares de atuação da Agenda Verde da Entidade.

A recomendação já começa a chegar às empresas. “Na medida do possível, eletrifiquem as suas atividades”, orientou Goldemberg, ao destacar que a matriz elétrica brasileira, majoritariamente renovável, tende a sofrer menos consequências de crises externas.

Antecipar as mudanças

É evidente que o Plano Clima marca uma mudança estrutural na relação entre sustentabilidade e atividade econômica. Para as empresas, o movimento exige uma mudança de postura. Mais do que acompanhar a regulação, será necessário ficar atento às tendências e incorporar a agenda climática à estratégia de negócios, com atenção para eficiência energética, logística e transporte, gestão de riscos climáticos e acesso a financiamento sustentável.

A mudança climática deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar o centro das decisões econômicas. Nesse novo contexto, quem se antecipa reduz os riscos e amplia as oportunidades, fortalecendo a governança empresarial.

A FecomercioSP, por sua vez, segue atuando como ponte entre o setor produtivo e o Poder Público, contribuindo para que essa transição ocorra de forma viável e equilibrada.

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