Legislação
17/08/2026Produtividade ‘anda de lado’ nos Serviços, responsáveis por 72% dos empregos
Fim do bônus demográfico torna eficiência produtiva a única via para sustentar aumento da renda, afirma Fernando de Holanda Barbosa na FecomercioSP; veja o estudo!
Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Fotos: Edilson Dias
Pesquisador apresentou uma radiografia da produtividade por setores que ajuda a explicar o desempenho da economia.
José Pastore, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho.
Fabio Pina, assessor econômico da FecomercioSP, durante sua análise sobre o estudo.
Ivo Dall’Acqua, presidente da FecomercioSP.
Boa parte do desafio brasileiro para crescer está no setor terciário, o de Serviços, que reúne atividades tão distintas quanto Comércio, transporte, alojamento, Tecnologia da Informação (TI), serviços financeiros, alimentação, educação e saúde. É o segmento que mais emprega no País, ao responder por 72,2% dos postos de trabalho, ante 57% em 1995. Justamente por concentrar a maior parte da mão de obra, é dessa atividade que depende boa parte dos crescimentos da produtividade agregada e da renda. Contudo, hoje, o setor mais importante da economia está “andando de lado”.
O problema é que, assim como muitos países emergentes, o Brasil falhou em garantir uma transição consistente para uma economia de serviços produtiva ao longo das últimas décadas.
“É relativamente fácil ganhar produtividade ao transferir trabalhadores do campo para a Indústria; o passo seguinte, ampliar um setor terciário moderno e produtivo, é bem mais difícil. A gente vai ser uma economia cada vez mais dependente desse setor. A pergunta é: qual economia de serviços a gente quer ser?”, questionou Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), durante seminário na Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

Convidado pelo Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Entidade, o pesquisador apresentou uma radiografia da produtividade por setores que ajuda a explicar o desempenho da economia. A Agropecuária foi o único setor com crescimento sólido desde 1995 (5,8% ao ano — a.a.), mas ainda em nível baixo e aquém dos mais produtivos do mundo nesse segmento. A Indústria, embora recue 0,5% a.a. no mesmo período, mantém o maior nível de produtividade entre os demais setores. Já os Serviços praticamente “andaram de lado”, o que pesa sobre o desempenho geral da economia.
Radiografia dos Serviços
Dentro do setor, o segmento de transportes apresentou o pior recuo de produtividade após 2010: 2,5% a.a. no mesmo intervalo, influenciado pelo avanço da informalidade e das plataformas digitais. O Comércio oscila, com leve queda.

Como se observa, a produtividade por hora de trabalho no setor como um todo permanece em queda: entre 1995 e 2025, a taxa foi de 0,8% — mais baixa do que entre 1995 e 2010 (1,2%).
Mesmo os serviços considerados modernos, como os de tecnologia, têm no Brasil produtividade equivalente à dos serviços tradicionais nos Estados Unidos, como restaurantes e atendimento, que estão bem abaixo dos setores de ponta.
Segundo Barbosa Filho, é na retomada da Indústria e, sobretudo, na elevação da produtividade nos Serviços que está o principal impasse para destravar o crescimento da renda. Outro fator que puxa a produtividade brasileira para baixo é o peso da informalidade. O pesquisador destacou que uma empresa formal é, em média, três vezes mais produtiva do que uma informal. Essa diferença é de mais de cinco vezes no Comércio e de oito nos transportes. “No Comércio, o setor está ficando menos produtivo, pois há uma grande perda de produtividade ocasionada pela informalidade.”

O problema, alertou, é que boa parte do esforço recente de formalização apenas trocou o enquadramento do trabalhador, sem alterar sua capacidade de produzir.
Produtividade e educação lado a lado
Produtividade e educação são inseparáveis. É justamente aí que o Brasil acumula uma defasagem histórica, segundo Barbosa Filho. No momento em que o País tentava industrializar-se, tinha, em média, metade dos anos de escolaridade das nações que estavam à frente: quando estas somavam oito anos de estudo, o Brasil tinha quatro; quando chegavam ao ensino superior, o brasileiro não havia concluído sequer o médio. Essa distância pesa, porque tecnologia e qualificação andam juntas e ambas ajudam na produtividade.
O economista explicou que a tecnologia disponível no mundo seria como um grande supermercado, em que as melhores soluções estão nas prateleiras mais altas, e a altura de cada um corresponde ao seu grau de escolaridade. “Se você não tem alcance para pegar a melhor tecnologia, não consegue adotá-la. Ela está disponível, mas você não é capaz de utilizá-la”, afirmou. No campo, por exemplo, não adianta entregar uma colheitadeira moderna, guiada por GPS, a um trabalhador sem capacidade para operá-la. A máquina existe, mas o ganho de produtividade não se realiza.
Fabio Pina, assessor econômico da FecomercioSP, reforçou o diagnóstico e acrescentou que a produtividade não depende apenas de cada trabalhador render mais, mas das escolhas que a nação faz em termos de produção. “Produtividade também deriva das escolhas do país, da inteligência que vamos produzir. A gente pode fabricar caneta ou chips, e são decisões muito importantes — formar as pessoas e para quê?”, questionou.
“Muitas vezes, o vendedor da loja não é eficiente em vendas, só entende de estoque. Imagine qual é a perda do restaurante quando o garçom traz o pedido errado. Isso pode ser expandido para a economia toda. Parte das pessoas que trabalham em obras não sabe medir, e a perda de materiais nesses casos chega a 30% no Brasil, principalmente quando envolve informalidade”, salientou Pina.
Para ele, a questão se agrava diante da Inteligência Artificial (IA), que tende a ampliar a distância entre o Brasil e as economias mais avançadas caso não se invista em qualificação. “Formamos vários engenheiros, economistas e advogados que nunca trabalharão na profissão. É um desperdício de tempo da pessoa e de recursos da sociedade”, disse.
Produtividade é a única via para sustentar aumento da renda
Por fim, Barbosa Filho advertiu para a gravidade da perda do bônus demográfico, o período em que a população em idade de trabalhar cresce mais rápido que o total. Entre 1995 e 2010, esse bônus respondeu por 0,7% do crescimento anual da renda per capita, ou seja, quase metade do total de 1,8%. Na década seguinte, caiu para 0,1%, e a tendência é chegar a zero ou ficar negativo.
Com o País envelhecendo antes de enriquecer, a produtividade será a via para sustentar o aumento da renda. E com a produtividade por hora de trabalho caindo [tabela 1], o Brasil deveria criar um conjunto de medidas que colaborem e avancem nessa direção, como repensar o ambiente de negócios, a formação do capital humano, o estoque de capital e uma tributação simplificada. “Mas nos esforçamos para fazer quase tudo na direção contrária, com decisões quase diárias que não contribuem ou que prejudicam a economia”, frisou o economista.
Segundo Ivo Dall’Acqua, presidente da FecomercioSP, é importante ter em mente que a baixa produtividade não decorre da falta de dedicação do trabalhador brasileiro, mas de todo o contexto de entraves nacionais. “Produtividade não é sinônimo de trabalhar ou se esforçar mais, mas de ter melhores condições para produzir — e o País ainda enfrenta infraestrutura deficiente, custos logísticos elevados e um ambiente de negócios pesado, em que burocracia, insegurança jurídica e complexidade tributária consomem tempo e recursos de empresas e profissionais preparados”, enfatizou. “Por isso, a produtividade precisa estar no centro da agenda de desenvolvimento do Brasil. Melhores empregos, salários maiores e mais qualidade de vida só são sustentáveis se apoiados em uma economia capaz de gerar riqueza”, concluiu.
O seminário reuniu ainda outros especialistas em torno do tema: Sólon Cunha, do escritório Robortella e Peres Advogados; José Paulo Chahad, da Universidade de São Paulo (USP); e Sylvia Lorena, da Confederação Nacional da Indústria (CNI).