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Editorial

Produtividade exige ambiente de negócios mais eficiente

Baixa qualificação, informalidade, investimentos insuficientes e dificuldades de acesso a crédito e tecnologia limitam a eficiência das empresas

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Produtividade exige ambiente de negócios mais eficiente

A produtividade brasileira, que está estagnada, tornou-se um dos principais entraves ao crescimento econômico, especialmente com o fim do bônus demográfico. Esse foi o diagnóstico apresentado pelo economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), e pelo professor José Pastore, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (FecomercioSP), em debate promovido pelo Conselho Superior de Economia, Sociologia e Política da Entidade. Para reverter esse quadro, os especialistas apontaram a necessidade de uma agenda que combine educação e qualificação profissional, investimento, incorporação de tecnologia e melhoria do ambiente de negócios. Defenderam, ainda, mudanças que permitam uma alocação mais eficiente dos recursos e favoreçam o crescimento das empresas mais produtivas.

Antonio Lanzana, presidente do conselho, também participou da discussão e destacou a dimensão do problema. A produtividade por hora trabalhada nos Estados Unidos é 315% superior à brasileira, enquanto no Chile é 60% maior e no México, 35% a mais. No Brasil, o crescimento da produtividade, que chegou a 4% ao ano entre 1950 e 1980, caiu para 0,6% desde 1980 e recuou 0,3% nos últimos dez anos.

Segundo Holanda, o problema é multidisciplinar e não será resolvido por uma única medida. O economista abordou quatro grandes grupos de obstáculos: qualificação da mão de obra, ambiente de negócios, infraestrutura e má alocação de recursos. O desafio se torna ainda maior porque os Serviços, que concentram hoje mais de 70% dos empregos no Brasil, estão entre os setores com menor avanço da produtividade. Como Comércio e outros Serviços concentram grande parcela dos trabalhadores, elevar a produtividade nessas atividades é fundamental para aumentar a renda per capita do País.

Crédito desigual

Um dos problemas apontados por Holanda é a dificuldade de direcionar recursos às empresas mais produtivas. Ele citou como exemplo uma pequena empresa com grande potencial de crescimento que não consegue acesso ao crédito, enquanto uma empresa já estabelecida e menos produtiva pode continuar recebendo financiamento subsidiado. A informalidade agrava a situação ao dificultar o acesso a crédito e tecnologia. O economista também chamou a atenção para a concentração de empresas pouco produtivas e para regras tributárias e regulatórias que podem prolongar a sobrevivência de negócios que deveriam perder espaço para empresas mais eficientes.

Pastore concentrou sua apresentação nas Pequenas e Médias Empresas (PMEs) de Comércio e Serviços, que têm características próprias e lidam com problemas adicionais para elevar a produtividade. Muitas são familiares, administradas pelos próprios donos e sujeitas a uma demanda irregular. Além disso, têm mais dificuldade para obter crédito, adquirir equipamentos e incorporar tecnologia. Segundo o professor, nos países em que essas empresas apresentam melhor desempenho — como Suíça, Reino Unido, Dinamarca, Japão e Coreia do Sul —, há mais integração com grandes companhias e exportadores, menos peso da burocracia, mais acesso a crédito e tecnologia e melhor qualificação dos gestores.

A informalidade é, para Pastore, um dos principais impasses à modernização das pequenas empresas, uma vez que dificulta o acesso ao crédito, à tecnologia e ao conhecimento e reduz a possibilidade de integração com grandes empresas e mercados externos. O professor apresentou ainda o peso dos encargos sobre o trabalho formal — segundo a metodologia utilizada em sua apresentação, o custo adicional sobre o salário chega a 102,43%, ou cerca de 98% nas empresas do Simples. Como comparação, citou 79,7% na França, 60% na Alemanha, 48,06% no Uruguai e 41% no Paraguai. Pastore ressaltou que o elevado custo da contratação formal contribui para a informalidade e dificulta a modernização dos negócios.

Agenda de longo prazo

Lanzana acrescentou à discussão fatores macroeconômicos que ajudam a explicar a baixa produtividade brasileira, como a queda nos investimentos em infraestrutura, a baixa taxa de investimento, a limitada integração internacional e o atraso tecnológico. Segundo os dados apresentados, o investimento em infraestrutura caiu de cerca de 5% para 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o Brasil investe 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, contra 2,7% na média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ele também destacou o contraste com o Agronegócio, cuja produtividade por hora trabalhada cresceu 491% em cerca de três décadas, enquanto a Indústria registrou queda de 9% no período.

Os três especialistas convergiram na necessidade de uma agenda ampla e de longo prazo para elevar a produtividade. Educação de qualidade, formação profissional, investimento, infraestrutura, tecnologia, competição, segurança jurídica e melhor alocação de recursos precisam avançar conjuntamente. Holanda enfatizou a necessidade de preparar trabalhadores e empresas para a Inteligência Artificial (IA); Pastore, por sua vez, apontou as questões enfrentadas pelas PMEs; e Lanzana reforçou a importância de investimento, inovação e estabilidade das regras. Como exemplo de política de longo prazo, Pastore lembrou da criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), baseada na formação de pesquisadores e na pesquisa aplicada às condições brasileiras — o programa previa, inicialmente, o treinamento de mil pesquisadores e acabou formando 2,5 mil.

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